A
morte e o mito
O domingo, 25 de abril de 1852, se iniciara sombrio na casa
do Dr. Inácio Manuel Álvares de Azevedo, no Rio de Janeiro.
Seu filho Manuel Antônio, o Maneco, pedira à mãe, D.
Maria Luísa, que mandasse celebrar uma missa em seu quarto de doente.
Sentia que, depois de mais de 40 dias prostrado no leito, vítima
de uma série de males, que se manifestaram violentamente após
uma queda de cavalo, chegara a hora da morte - que tanto cantara em seus
versos de adolescente, apaixonado pelos delírios macabros de Byron
e Musset.
Após se confessar ao padre arrumado às pressas, pediu à
mãe, grávida de seu oitavo irmão, que se retirasse
do quarto, pois precisava descansar. Por volta das 4 horas da tarde, com
o auxílio do irmão Quinquim - quatro anos mais moço
- ergueu-se um pouco do leito, beijou a mão de seu pai e,
a custo, exclamou:
-- Que fatalidade, meu pai!
Tentou ainda dizer algumas palavras, mas a boca já se contraía
e o corpo jazia imóvel nos braços do irmão.
-- Maneco! Maneco!... Gritavam Quinquim e o Dr. Inácio Manuel.
Do quarto ao lado, D. Maria Luísa, ouvindo e entendendo, soltou
um grito desesperado e desfaleceu.
No enterro, discursou o parente Joaquim Manuel de Macedo, médico,
professor e já um dos mais importantes e populares romancistas do
Brasil, autor de A Moreninha (1844). Entre outros elogios, afirmava que
“Deus tinha acendido na alma do mancebo aquele fogo sagrado da poesia,
que eleva o homem acima da terra e faz correr de seus lábios, em
cânticos sonoros, a linguagem do inspirado”.
No dia 27 de abril, o Correio Mercantil, jornal onde então trabalhava
Manuel Antônio de Almeida, publicou, na primeira página, uma
nota em que se lia: “Nesse jovem perdeu o Brasil um de seus mais esperançosos
filhos, um coração patriótico e dedicado, um poeta
cujos vôos deviam elevar-se a grandes alturas, um advogado que prometia
em breve conhecer todos os arcanos da ciências jurídicas,
pois que ainda no fervor dos anos já lhe eram igualmente familiares
os poetas e literatos da Itália, da Alemanha, da França e
da Inglaterra, assim como os escritos dos mais abalizados jurisconsultos
e publicistas.”
Quase um mês depois, a 22 de maio, em São Paulo, a sociedade
acadêmica a que Maneco pertencia, o Ensaio Filosófico Paulistano,
realizava uma sessão fúnebre em sua homenagem, presidida
por Amaral Gurgel. Nos vários discursos e poemas apresentados, “gênio”
é a palavra mais usada para caracterizá-lo.
Ao morrer, Manuel Antônio Álvares de Azevedo havia publicado
apenas alguns poemas e discursos em revistas acadêmicas de circulação
restrita aos estudantes de Direito de São Paulo. Já era,
no entanto, considerado, por aqueles que o conheciam, uma grande esperança
poética e intelectual.
A sua morte, antes que chegasse a completar o vigésimo primeiro
aniversário, privou-nos, nas palavras de José Veríssimo,
“daquele que seria talvez o máximo poeta brasileiro”. Seria... Talvez...
O certo é que a morte jovem criou, como sempre, um mito. O
mito do gênio doente e mórbido, que previra a própria
morte em “Se Eu Morresse Amanhã”:
“Nada que é tudo”, todo mito é enigmático. A tão
curta vida de Álvares de Azevedo é fonte de inúmeras
polêmicas entre seus biógrafos. Discute-se desde o local onde
teria nascido até a causa médica de sua morte. Principalmente
polemiza-se em torno da sua conduta quando estudante em São Paulo.
Libertino devasso ou estudante recatado? Vamos aos fatos que parecem certos.
Sabe-se que o autor da Lira dos Vinte Anos nasceu no dia 12 de setembro
de 1831, em São Paulo, onde seu pai era ainda quintanista da Faculdade
de Direito. Tudo indica que teria nascido na biblioteca da casa do avô,
embora haja uma lenda de que o parto teria ocorrido na biblioteca da própria
Faculdade de Direito. De qualquer modo, Álvares de Azevedo teria
nascido como, de resto, passaria toda a vida: entre livros.
Formado, seu pai se transfere para a capital, o Rio de Janeiro, iniciando
logo brilhante carreira jurídica. Aos quatro anos de idade, Maneco
depara-se, pela primeira vez, com a morte. O falecimento de seu irmãozinho,
Manuel Inácio, deixa marcas profundas sobre o jovem sensível.
Alguns biógrafos atribuem ao choque com a morte do irmão
uma febre que o domina entre os cinco e os seis anos, quase o mata, e que
o deixaria debilitado pelo resto da vida. Certamente o poema “O Anjinho”,
da Lira dos Vinte Anos, traduz, anos depois, a forte impressão que
o episódio lhe causou:
Neste livro de contos macabros, com histórias de amor e morte, Álvares
de Azevedo revela, em prosa, por que ficou conhecido como o “Byron brasileiro”.
As histórias de Noite na Taverna são carregadas de
fantasia. Passam-se em diferentes países da Europa, seus personagens
são devassos que se apaixonam por mulheres perdidas ou virgens misteriosas
que terminam por perder-se. A sexualidade é sempre punida com a
loucura e a morte e o amor jamais se realiza plenamente. A atmosfera das
cidades é corrompida e nebulosa, povoada de figuras fantasmagóricas.
A imaginação romântica de Álvares de Azevedo
se declara de forma exuberante nos contos do livro, narrados num estilo
repleto de adjetivos e reticências.
No final da peça Macário, Álvares de Azevedo apresenta a personagem-título se aproximando de uma janela e observando, dentro de uma taverna, vários jovens conversando. Assim, na verdade, inicia-se o livro Noite na Taverna. Vejamos a cena final da peça de Álvares de Azevedo:
Os homens reunidos na taverna procuram impressionar seus ouvintes, acrescentando
detalhes cada vez mais imaginativos, macabros e chocantes a seus relatos
amorosos teoricamente pessoais e verídicos. Antonio Candido explica
que, "em Álvares de Azevedo, elementos macabros estariam compondo
com estes, de maneira peculiar, o par romântico Amor e Morte."
Segundo Mário de Andrade, “Álvares de Azevedo sofreu como
nenhum, apavoradamente, o prestígio romântico da mulher. Pra
ele a mulher é uma criação absolutamente sublime,
divina e ... inconsútil. O amor sexual lhe repugnava, e pelas obras
que deixou é difícil reconhecer que tivesse experiência
dele.” Os relatos de Noite na Taverna parecem confirmar a opinião
do autor de Macunaíma. Os contos giram em torno dos
temas do amor e da morte, que são relacionados pela presença
de momentos de necrofilia, incesto, assassinatos, canibalismo, loucuras
várias. Assim, o amor está sempre na fronteira com a morte
e a sexualidade se reveste de culpas e punições.
Solfieri
O primeiro personagem a narrar sua história é Solfieri. O
caso se passa em Roma, onde viu, numa noite chuvosa, uma misteriosa mulher.
Seguiu-a através das ruas da cidade até um cemitério.
A pálida mulher se ajoelhou em uma tumba e parecia chorar e cantar.
Solfieri, enquanto a vigiava, adormeceu na chuva. Quando acordou de um
sonho febril e delirante, a mulher desaparecera. Um ano depois, de volta
a Roma, ainda deseja e sofre com aquela visão. Uma noite, depois
de uma orgia, caminha pela cidade e entra num templo vazio, onde há
um caixão entreaberto e o corpo de uma moça. Ele reconhece
a mulher da sua visão. Fecha as portas da igreja, tira o corpo do
caixão, beija e despe a mulher: “O gozo foi fervoroso – cevei em
perdição aquela vigília”, descreve.
Porém, a moça reanima-se ao “calor do seu peito e à
febre de seus lábios” e revive. Acorda e desmaia. O narrador explica
aos amigos: “Nunca ouvistes falar de catalepsia?” Ele leva a mulher do
templo e a esconde em sua casa. Nos dois dias seguintes, ela parece enlouquecida:
“Ria de um rir convulso como a insânia, e frio como a folha de
uma espada. Trespassava de dor o ouvi-la. (…) Não houve como sanar-lhe
aquele delírio, nem o rir do frenesi. Morreu depois de duas noites
e dois dias de delírio.”
Solfieri chama um escultor, encomenda e paga, em segredo, uma estátua
de cera da jovem. Quando o escultor vai embora, ele a enterra no quarto,
embaixo de sua cama. Durante um ano, dorme em cima da sua sepultura, até
que a estátua fique pronta. Para confirmar a veracidade da história,
lembra ao amigo Bertram que ele já vira a estátua através
das cortinas do seu quarto, mas, na ocasião, Solfieri dissera que
era “uma virgem que dormia”. E mostra, para os amigos que duvidam, a capela
da defunta, que trazia como um amuleto em volta do seu pescoço:
“uma grinalda de flores mirradas”, “murcha e seca como o crânio dela!”
Bertram
Quando Solfieri termina seu relato, Bertram se levanta e passa a contar
como se perdera graças a uma mulher. Na Espanha, ele conheceu e
se apaixonou por Ângela, uma bela donzela. Quando conseguiu conquistá-la,
já decidido a casar-se com ela, é chamado por seu pai e parte
para a Dinamarca. Após dois anos, chega à casa do pai, que
estava morrendo. Depois da morte do pai, ele volta à Espanha e encontra
Ângela casada e com um filho. No entanto, eles ainda se amam e Bertram
passa a ter um caso com ela.
Porém,
o marido de Ângela descobre e “quis representar de Otelo com ela.
Doido…” À noite, Bertram espera ver a amada através da janela
e, quando passa por sua casa, Ângela o chama. Ele entra e vê
o marido dela degolado e, sobre seu peito, o filho, também morto.
Ela matara a ambos:
“ - Vês, Bertram, esse era o meu presente (…) Sou tua e
tua só. Foi por ti que tive força bastante para tanto crime…
Vem, tudo está pronto, fujamos. A nós, o futuro!”
Os dois fogem e viajam muito. Ela passa a se vestir de homem, beber, fumar, montar a cavalo e atirar. Um dia, abandona Bertram:
“…partiu, mas deixou-me os lábios ainda queimados dos seus, e o
coração cheio de gérmen de vícios que ela aí
lançara. Partiu. Mas sua lembrança ficou como o fantasma
de um mau anjo perto de meu leito. Quis esquecê-la no jogo, nas bebidas,
na paixão dos duelos. Tornei-me um ladrão nas cartas, um
homem perdido por mulheres e orgias, um espadachim terrível e sem
coração.”
Uma noite, é atropelado por uma carruagem em frente a um palácio.
O dono do palácio, um nobre velho e viúvo, socorre e dá
abrigo a Bertram. Ele desonra a única filha do nobre, uma bela jovem
de 18 anos que se apaixona por ele, e foge com ela. Depois, enjoa da moça
- “A saciedade é um tédio terrível” – e, numa noite
de jogatina com Siegfried, o pirata, vende a jovem para o pirata. Logo
na primeira noite, ela envenena Siegfried e afoga-se.
Tempos depois, na Itália, Bertram tenta o suicídio no mar,
mas é salvo por um homem e, sem querer, o mata. Desmaia e acorda
num barco. É levado para uma corveta, cujo comandante o acolhe.
À bordo, viaja a mulher do comandante, por quem Bertram se apaixona.
Os dois traem o comandante todas as noites enquanto ele dorme.
Alguns dias depois de um ataque pirata, o navio encalha num banco de areia.
Viajam todos, então, numa jangada no meio do mar, quando vem uma
tempestade e muitos homens morrem. Pela manhã, só havia sobrado
cinco pessoas: Bertram, o comandante, sua mulher e dois marinheiros. O
alimento e a água acabam, os dois marinheiros morrem e eles, para
sobreviver, são obrigados a “uma prática do mar, uma lei
do naufrágio – a antropafagia”, explica Bertram. Dois dias depois,
os três tiram a sorte para decidir quem morreria para alimentar os
outros. O comandante é o escolhido. Como ele suplica para não
morrer, Bertram luta com ele e o mata. Alimentam-se do cadáver por
dois dias e passam os dois outros sem comer, nem beber. Ela propõe
que eles morram juntos, Bertram concorda: “Esse dia foi a ultima agonia
do amor que nos queimava: gastomo-lo em convulsões para sentir ainda
o mel fresco da voluptuosidade banhar-nos os lábios... Era o gozo
febril que podem ter duas criaturas em delírio de morte.”
No entanto, durante a noite, com febre e faminto, Bertram mata a moça,
sufocando-a com um beijo. Porém, uma onda leva o corpo: “Eu a vi
boiar pálida como suas roupas brancas, seminua, com os cabelos banhados
de água: eu via-a erguer-se na escuma das vagas, desaparecer, e
boiar de novo: depois não a distingui mais — era como a escuma das
vagas, como um lençol lançado nas águas...” Dias depois,
é salvo por um navio inglês, o Swallow.
Gennaro
Após o relato de Bertram, Gennaro, o pintor, conta o que aconteceu
a ele quando tinha 18 anos e era aprendiz na casa do mestre Godofredo Walsh.
Godofredo já era velho, tinha uma filha de 15 anos – Laura – do
seu primeiro casamento e era casado com Nauza, uma jovem de 20 anos.
Gennaro apaixonou-se
por Nauza e Laura apaixonou-se por ele. Uma manhã, o mestre e sua
mulher saíram. Gennaro ainda dormia quando Laura entrou no seu quarto.
Ele acordou “nos braços dela”. A partir desse dia, todas as manhãs,
durante três meses, Laura ia ao seu quarto. Um dia, ela revela que
está grávida e que ele deveria pedi-la em casamento ao seu
pai. Gennaro se cala e Laura percebe que ele não a ama nem quer
se casar com ela. Gennaro continua apaixonado por Nauza.
Laura não fala mais com Gennaro, adoece, e seu pai, vendo a filha
morrer aos poucos, pára de pintar e sofre muito. Laura chama Gennaro
na noite de sua morte, afirma que o perdoa e que morreria por sua causa.
O velho pai fica transtornado com a morte da filha e passa a se fechar
à noite no quarto dela, durante um ano. Enquanto o mestre chora
a morte da filha todas as noites, Gennaro revela seu amor por Nauza e passa
as noites no leito do mestre com sua mulher. Uma noite, o velho descobre
a traição, leva Gennaro para o quarto de Laura e lhe mostra
uma tela. Era o quadro da cena final da morte de Laura, que o mestre pintara.
O quadro representava Gennaro lívido ouvindo as últimas palavras
da moribunda.
No entanto, na manhã seguinte, o mestre se mostrou frio e não
comentou nada sobre o que acontecera na noite anterior. Isso se repetiu
por vários dias e noites e Gennaro percebeu que o mestre era sonâmbulo.
Uma noite, o mestre convida Gennaro para sair com ele e o leva para uma
montanha, à beira de um abismo. Pede que Gennaro espere, vai até
uma cabana e volta após alguns minutos. Fala para Gennaro que sabe
que ele lhe desonrara a filha e provocara a sua morte e que o traía
com sua mulher. Propõe que Gennaro se jogue no despenhadeiro antes
que ele mesmo o empurre. Gennaro, com medo e arrependido, deixa-se empurrar
pelo velho. Cai nas águas, mas é salvo por camponeses. Depois
que se restabelece, decide procurar o mestre e tentar obter o seu perdão.
Mas encontra, no caminho, o punhal do velho e pensa em se vingar. Quando
chega à casa de Godofredo, esta está trancada e às
escuras. Arromba a porta e vai ao quarto de Nauza. Há um cheiro
pestilento no ambiente e então ele vê os corpos de Nauza e
de Godofredo. Entre ambos, o copo de veneno que o mestre, como Gennaro
vem a saber depois, comprara na cabana da montanha. O velho matara a mulher
e se suicidara.
Claudius
Hermann
Os amigos insistem para que o inglês Claudius Hermann, que está
bastante bêbado, conte uma história também. Ele conta
que era um milionário devasso, viciado em corridas de cavalo. Um
dia, antes das corridas começarem, ele vê uma bela mulher
passando a cavalo na frente das arquibancadas: “no cavalo negro, com as
roupas de veludo, as faces vivas, o olhar ardente entre o desdém
dos cílios, transluzindo a rainha em todo aquele edema soberbo:
… bela na sua beleza plástica e harmônica, linda nas suas
cores puras e acetinadas, nos cabelos negros, e a tez branca da fronte;
o oval das faces coradas, o fogo de nácar dos lábios finos,
o esmero do colo ressaltando nas roupas de amazona”.
Era a duquesa Eleonora e Hermann se apaixona por ela. Passa a segui-la
e contemplá-la durante seis meses. Resolve, então, possuí-la
de qualquer maneira. Suborna um empregado do palácio e, todas as
noites, durante um mês, coloca sonífero na bebida de Eleonora
e a possui enquanto ela dorme. Mas, ainda insatisfeito, decide raptá-la.
Coloca o sonífero no copo de água ao lado da cama da duquesa.
O duque Maffio também bebe daquela água e ambos ficam narcotizados.
Claudius carrega Eleonora adormecida para uma estalagem, fora da cidade.
Quando a duquesa desperta na manhã seguinte, recusa-se a se entregar
a ele, mas Claudius consegue convencê-la, falando do seu amor, mostrando-lhe
os versos que escrevera para ela e, principalmente, argumentando que o
marido a recusaria depois do rapto, e a sociedade a condenaria.
Neste ponto da narrativa, Claudius mostra aos companheiros da taverna os
versos que escrevera para a duquesa. Johann lê para os outros convivas.
Claudius retoma o relato e conta que Eleonora decidiu ficar com ele. Interrompe
aí o caso e dorme, desmaiado de sono e bebida. Os ouvintes tentam
acordá-lo, mas não conseguem. Arnold, o louro, que até
então estava dormindo, acorda e termina a narrativa de Hermann.
Conta que, um dia, ao entrar em sua casa, Claudius encontrou “o leito ensopado
de sangue” e, em um canto escuro, abraçado ao cadáver de
Eleonora, o corpo do duque Maffio. Ele matara a esposa e se suicidara.
Arnold termina a história, estende sua capa no chão da taverna
e volta a adormecer, junto com outros companheiros que ali já dormiam.
Johann
A história de Johann se passa em Paris. Estava jogando bilhar com
um belo jovem louro que se chamava Artur. Acreditando que o jovem tentava
trapaceá-lo, briga com ele. Os dois decidem, então, travar
um duelo. Dirigem-se ao hotel em que mora Artur, onde este escreve uma
carta à mãe e mostra a Johann um anel no seu dedo. Sugere
que, se ele morrer, Johann entregue tudo a alguém que ele iria revelar
mais tarde. Brindam juntos à amada misteriosa de Artur.
Artur explica que o duelo seria à queima-roupa, com duas pistolas,
uma carregada e outra não. Cada um escolheria a pistola sem saber
qual estava carregada. Johann concorda e ambos vão a uma esquina
deserta, fora da cidade. À meia-noite, Artur coloca as pistolas
no chão. Eles escolhem as pistolas, sem tocá-las. Artur reza
por sua mãe enquanto Johann lembra-se de que também tem uma
família: a mãe, uma irmã e um irmão, que vive
com elas e protege a irmã. No entanto, ele sempre os esquecia.
O duelo prossegue. Eles caminham “frente a frente”, as pistolas se encostam
nos peitos e são disparadas. Artur cai quase morto. Johann pega
o anel e tira do bolso de Artur dois bilhetes. Volta à cidade e,
à luz de um lampião, vê que um dos bilhetes era a carta
para a mãe do rapaz, o outro era destinado a Artur, estava aberto
e assinado apenas por uma inicial: “Tua G”. A mulher misteriosa marcava
um encontro com o rapaz. Johann, por impulso, decide ir ao encontro no
lugar de Artur.
Quando chega ao endereço mencionado, Johann está com o anel
de Artur. No escuro, uma mão feminina encontra a dele e o leva.
Sobem as escadas e entram num aposento. A moça fecha a porta e se
entrega a Johann, que nota que ela era virgem. Passam a noite juntos e,
quando Johann está saindo do quarto, encontra um vulto à
porta. Acha que conhece aquela voz, mas não consegue se lembrar
de quem era. O vulto o segue pelas escadas e, quando chegam à porta,
o ameaça com uma faca. Eles lutam e Johann mata o rapaz sufocado.
Ao sair, tropeça numa lanterna e resolve ver quem era o jovem que
matara. Ergue a lâmpada e o reconhece: era seu irmão.
Desatinado, sobe de volta para o quarto da jovem. A moça está
desmaiada. Ele carrega seu corpo até a luz e vê… Nesse ponta
da narrativa, Johann pede conhaque ao amigo Archibald; está trêmulo
e suando, diz que sente frio e quer beber para esquecer. Então,
finalmente, confessa: a moça que desonrara naquela noite terrível
era a sua própria irmã.
Último
beijo de amor
Terminada a orgia, todos dormem, repletos de vinho, na taverna escura.
A noite já vai alta quando a porta abre-se e entra uma mulher vestida
de negro. O narrador assim a descreve:
“Talvez que um dia
fosse uma beleza típica, uma dessas imagens que fazem descorar de
volúpia nos sonhos de mancebo. Mas agora com sua tez lívida,
seus olhos acesos, seus lábios roxos, suas mãos de mármore,
e a roupagem escura e gotejante da chuva, disséreis antes — o anjo
perdido da loucura.”
Procura alguém, com a lanterna, entre os convivas adormecidos. Encontra
Arnold, o loiro, parece que vai beijá-lo, mas pára e continua
procurando. Quando a luz ilumina Johann, aproxima-se e o apunhala. Volta-se
para Arnold e o acorda. Arnold reconhece sua antiga namorada, e ela confirma:
“- Outrora era Giorgia, a virgem; mas hoje é Giorgia, a prostituta!”
Então, no diálogo que travam tudo se esclarece. Ela era a
“G” do conto anterior, contado por Johann enquanto Arnold dormia. Artur
não morrera no duelo, fora socorrido e sobrevivera. Adotara o nome
de Arnold e vivera desesperado os últimos cinco anos, na libertinagem,
sempre desejando reencontrar sua amada, que desaparecera. Enquanto isso,
Giorgia se tornara prostituta. Ela diz que está lá para se
despedir de Artur/Arnold porque vai morrer e mostra o corpo de Johann.
Arnold pergunta quem o matou e ela responde: “— Giorgia. Era ele um infame.
Foi ele quem deixou por morto um mancebo a quem esbofeteara numa casa de
jogo. Giorgia a prostituta vingou nele Giorgia, a virgem. Esse homem foi
quem a desonrou! desonrou-a, a ela que era sua irmã!”
Giorgia, então, despede-se de Artur, e mata-se com o punhal. Artur
apanha o punhal e se suicida. Seu corpo cai sobre o de Giorgia e
a lâmpada apaga-se.
1. Edição
de Noite na Taverna utilizada:
1.1. Obras Completas de Álvares
de Azevedo; Org. Homero Pires; Rio de Janeiro; Companhia Editora Nacional;
1942.
2. Obras Consultadas:
2.1. ALMEIDA, Pires ; A Escola
Byroniana no Brasil; São Paulo; Conselho Estadual de Cultura;
1962.
2.2. ANDRADE, Mário de ;
"Amor e Medo" in Aspectos da Literatura Brasileira; São Paulo;
Martins; 1960.
2.3. BARBOZA, Onédia Célia
de Carvalho ; Byron no Brasil: Traduções; São
Paulo; Ática; 1974.
2.4. CANDIDO, Antonio ; "Álvares
de Azevedo, ou Ariel e Caliban" in Formação da Literatura
Brasileira, Vol. 2, Belo Horizonte/ São Paulo; Itatiaia/Edusp,
1975.
2.5. CANDIDO, Antonio; "Cavalgada
Ambígua" in Na Sala de Aula; São Paulo; Ática;
1985.
2.6. CARPEAUX, Otto Maria ; História
da Literatura Ocidental - 8 Vols.; Rio de Janeiro; Alhambra; 1978.
2.7. CARVALHEIRO, Edgar ; Álvares
de Azevedo; São Paulo; Melhoramentos; s.d.
2.8. JORDÃO, Vera Pacheco;
Maneco, O Byroniano; Rio de Janeiro; Os Cadernos de Cultura/ MEC;
1955.
2.9. MAGALHÃES JÚNIOR,
Raimundo; Poesia e Vida de Álvares de Azevedo; São
Paulo; Editora da Américas; 1962.
2.10. VERÍSSIMO, José;
"Álvares de Azevedo"; in Estudos de Literatura Brasileira, Segunda
Série; Belo Horizonte/São Paulo


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