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Madame Pommery é um romance que representa um problema crítico dentro da tradição literária brasileira: sua primeira edição data de 1920 e, apesar do sucesso inicial, o livro caiu no esquecimento, sendo recentemente redescoberto pelos estudos literários voltados para o Pré-Modernismo e para a Teoria da Linguagem. Sua ação está centrada na trajetória de uma prostituta e cafetina chamada Madame Pommery, de origem judia e espanhola, que, no início do século, instala-se em São Paulo e produz uma renovação dos costumes da vida boêmia e mundana da cidade. Tais transformações acompanham de perto o processo geral de modernização da vida paulistana e brasileira no auge da República Velha. A personagem Madame Pommery representa uma reabilitação do mundanismo numa sociedade cada vez mais cosmopolita e afinada com a modernidade, porém ainda marcada por estruturas “arcaicas”, típicas de uma civilização patriarcal e conservadora, controlada por uma oligarquia baseada na economia do café. O livro se constitui numa saborosa sátira dos impasses sociais e culturais da vida paulistana desse período. |
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Hilário Tácito é o pseudônimo de José Maria de Toledo Malta, natural de Araraquara, nascido em 27 de março de 1885 e falecido em São Paulo, no dia 1? de novembro de 1951, aos 66 anos de idade. Engenheiro de formação, terminou seu curso em 1908 na Escola Politécnica de São Paulo. Logo em seguida, trabalhou na Companhia Mogiana de Estrada de Ferro, em Campinas. Em 1911, assumiu o cargo de Engenheiro de Águas e Esgotos de São Paulo, participando de projetos importantes para a cidade, tais como a construção do Edifício Martinelli, primeiro grande símbolo da verticalização de São Paulo. E ao aposentar-se, em 1942, era considerado um dos maiores especialistas de sua época nas técnicas do cimento armado, sobre as quais deixou um conceituado livro, respeitado até na Alemanha. Além de engenheiro e funcionário público, foi também um escritor e um humanista que se dedicou ao estudo de línguas (Inglês, Alemão, Italiano, Espanhol e, em especial, o Francês e o Latim). Dedicou-se ainda ao pensamento do filósofo e moralista francês Montaigne, do qual foi tradutor e um dos principais divulgadores no Brasil. Segundo testemunhos de contemporâneos seus, foi acima de tudo um homem retraído e discreto, avesso às badalações da vida literária. Além disso, era dotado de um espírito crítico agudo e de uma curiosidade intelectual ímpar, o que lhe permitia um domínio sobre os mais variados campos do saber. Foi amigo e companheiro de geração de Monteiro Lobato, Leo Vaz e Godofredo Rangel. Sua obra, relativamente pequena, compreende os seguintes textos:
Sem dúvida, Tácito é um daqueles autores que, se não deixou seguidores ou tornou-se referência fundamental dentro da tradição literária brasileira, constitui um excepcional exemplo de um momento cultural importante, pleno de contradições e impasses que ainda hoje marcam a vida nacional. |
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Segundo uma tradição acadêmica e didática bastante
enraizada nos estudos literários, o rótulo Pré-Modernismo
é empregado para designar o conjunto da produção literária
brasileira entre 1902 e 1922. A primeira data refere-se à
publicação do livro Os Sertões, de Euclides
da Cunha, cuja matéria é a Guerra de Canudos, e de Canaã,
de Graça Aranha, que tematiza a imigração alemã
no sul do Brasil. A segunda refere-se à Semana de Arte Moderna de
22, marco inicial do nosso Modernismo. Também é muito comum
o emprego da expressão belle époque, de origem francesa,
para designar este período de euforia social e avanço tecnológico
acelerado na Europa. Outro termo muito utilizado é o art nouveau,
ou seja, o estilo arquitetônico do início do século,
que incorpora a tecnologia moderna associada a elementos decorativos baseados
na estilização com motivos florais.
O termo Pré-Modernismo, utilizado pela primeira vez em 1939, pelo crítico Tristão de Atayde (pseudônimo de Alceu Amoroso Lima), como a maioria dos rótulos, pouco esclarece sobre o período ao qual diz respeito e, na ausência de outro mais apropriado, permanece utilizado pela crítica. A designação “Pré” (Pré-Romântico, Pré-Realista, etc.) não se mostra adequada porque pressupõe uma visão anacrônica da história, e não respeita a identidade dos períodos culturais, dotados de uma especificidade histórica. Ao utilizar o prefixo “Pré”, estamos julgando um momento por outro imediatamente posterior, perdendo desta forma muito daquilo que constitui sua particularidade e sua autenticidade. Isto posto, tentemos compreender aquilo que habitualmente é chamado de literatura pré-modernista no Brasil. Se atentarmos bem para as suas balizas históricas (1902-1922), perceberemos que o Pré-Modernismo está localizado num momento preciso da vida brasileira, ou seja, a República Velha (1889-1930), tradicionalmente dividida em duas fases: a República da Espada e a República do Café com Leite. Além disso, o Pré-Modernismo é contemporâneo de um fato histórico marcante para a civilização européia, vale dizer, ocidental: a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), que tão largas conseqüências produziu para a história recente. A República Velha representa um momento crucial para a vida brasileira, e nela se definiram impasses sociais, políticos e culturais que atravessam o século XX e se fazem sentir até hoje, de tal forma que muitos dos problemas e das críticas levantadas por escritores como Euclides da Cunha, Lima Barreto, Monteiro Lobato e Hilário Tácito permanecem atualíssimas. A República Velha marca um momento de transição de um Brasil “velho” e “arcaico” para um Brasil que se quer afinado com a modernidade. Desde a descoberta (século XVI) até o colapso da Monarquia (final do século XIX), o Brasil foi um país essencialmente agrário, ou melhor, agro-exportador, “periférico” na ordem capitalista internacional. Somente a partir de 1930, com o início da era Vargas, o perfil de país urbano e industrial começa a se definir, apesar de sua precariedade. Entre o final do século XIX e o início do XX, vivemos um momento de transição histórica: de um lado, temos uma ordem patriarcal, latifundiária e conservadora, que ainda manipula e detém oligarquicamente o controle da vida nacional; de outro, temos um processo tímido mas verdadeiro de urbanização e industrialização, acompanhado de perto pela proletarização da mão-de-obra, pela especialização das classes médias e pela imigração estrangeira. Este período é também marcado pelo início da organização da classe trabalhadora, com o fortalecimento do movimento operário e a conseqüente divulgação de idéias anarquistas e socialistas, o que culmina nas greves de 1917, em São Paulo e no Rio de Janeiro, vale dizer, no mesmo ano da Revolução Russa. Além disso, neste período, devido ao processo da Abolição, a marginalização do negro se intensifica: mão-de-obra não qualificada dentro dos novos quadros produtivos. Um bom exemplo deste fenômeno encontraremos nas obras mais radicais de Lima Barreto. Assim, estes anos são marcados por transformações aceleradas, e por uma diversificação social e cultural apreciável, que se fará sentir em todos os níveis da vida brasileira, produzindo discursos conflitantes. Debate esse sem precedente na nossa cultura, com ecos na produção literária, o que torna muito difícil a tarefa de identificar um traço estético dominante neste momento tão diversificado. Aliás, talvez a característica mais marcante do período seja o ecletismo ou o sincretismo cultural, isto é, a convivência das mais diversas tendências literárias e estéticas num mesmo contexto histórico. Há duas acepções básicas contidas no rótulo “Pré-Modernismo”:
Se fizermos um amplo panorama da cultura nacional, desde a Literatura Informativa até o Simbolismo, podemos perceber uma tendência generalizada, principalmente a partir do Romantismo: a de se formalizar um nacionalismo ufanista, centrado na idealização e na exaltação da nacionalidade a partir de um sentimento nativista de apego à nossa “cor local”. O Brasil é visto essecialmente como um lugar edênico, no qual as contradições, se existem, só apontam para um futuro glorioso. Esse sentimento dominante nas nossas letras - exceção feita a Machado de Assis - só começa a ser desautorizado e problematizado com a publicação de obras como Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, Urupês (1918), de Monteiro Lobato, e Triste fim de Policarpo Quaresma (1915), de Lima Barreto. Esses textos se detêm de maneira diferenciada sobre as contradições gritantes de um Brasil real e bem pouco idealizado, produzindo um discurso nacionalista crítico, empenhado na desmistificação da visão dominante sobre o país e na exposição de suas mazelas. Assim sendo, essa visão crítica da nação, inaugurada pelas obras e autores citados, será radicalizada pelo tom de festa da primeira geração modernista e sedimentada pelas gerações futuras. Neo-simbolistas, neo-parnasianos, beletristas e decadentistas convivem, lado a lado, com Euclides da Cunha, Monteiro Lobato e Lima Barreto, autores estranhos, complexos e difíceis de qualificar, e que, acima de tudo, foram críticos do seu tempo e do país no qual viveram. Sem esquecer de Augusto dos Anjos, poeta cuja insólita lírica em muito foge aos padrões da época. Portanto, estamos diante de um momento altamente fecundo. Ainda que muito de sua produção possa hoje ser questionada quanto à qualidade e à importância literária, sua relevância histórica parece ser indiscutível. |
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A sátira de costumes Madame Pommery, de Hilário Tácito, enquadra-se claramente no Pré-Modernismo brasileiro, tanto na acepção mais ampla, quanto no sentido mais restrito do termo. Por um lado, a obra teve sua primeira edição em 1920, portanto cronologicamente situada no período. Por outro lado, pelo seu tom de aguda e desabusada crítica a determinados aspectos da vida paulistana e nacional e pela sua linguagem absolutamente irônica e reveladora de aspectos bem pouco edificantes da nossa experiência social e cultural, Madame Pommery pertence à galeria das obras que abriram caminho para a revisão crítica do país e de suas instituições mais particulares, que, segundo Hilário Tácito, seriam: o coronelismo e o caciquismo. Daí a sua conexão com as trilhas exploradas pelos modernistas, e qualquer leitor que conheça as Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade, perceberá a afinidade intelectual entre as duas obras, uma vez que ambas utilizam o registro satírico como forma de crítica à sociedade cafeeira pulistana do início do século. Além disso, nesses dois romances, a fragmentação da narrativa (muito mais radical em Oswald) é um dado fundamental, que aponta para a renovação das formas literárias do período. Cumpre lembrar também que Madame Pommery, apesar de menos conhecida, faz parte de uma tradição de literatura satírica que remonta ao Romantismo brasileiro e percorre os séculos XIX e XX, com ilustres representantes nas Memórias de um Sargento de Mílicias, de Manuel Antônio de Almeida, nas Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, no já citado romance de Oswald de Andrade, e em Macunaíma, de Mário de Andrade. Além disso, Madame Pommery aproxima-se tematicamente, e de maneira irônica, de uma larga tradição de romances românticos centrados na figura da cortesã (prostituta fina), cujo melhor exemplo é a Dama das Camélias, de Alexandre Dumas, e que apresenta um bom modelo nacional em Lucíola, de José de Alencar. Assim, uma leitura atenta permite estabelecer inúmeras relações entre Madame Pommery e estas obras, quanto ao gênero, à linguagem e à construção narrativa e romanesca, bem como em seu caráter temático e estilístico, exigindo do leitor um trabalho essencialmente baseado na intertextualidade e na metalinguagem. Aliás, muito da graça e do prazer da leitura se perde justamente se o leitor contemporâneo não dispuser de uma bagagem mínima de referências culturais brasileiras que estão na base do efeito satírico que a obra produz. |
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O título De imediato, o título Madame Pommery chama a atenção do leitor, que é induzido a relacioná-lo ao título de um dos maiores romances do século XIX: Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Madame Bovary foi publicado na França em 1857, e é considerado o marco inicial do Realismo europeu. O livro, quando veio à luz, produziu um impacto imenso e um escândalo rumoroso, que acabou levando seu autor aos tribunais, acusado de ataque virulento à moral. O romance narra a história de Emma Bovary - esposa de um pacato, medíocre, e provinciano médico chamado Charles Bovary - que, sufocada pelos estreitos limites da existência pequeno-burguesa, entrega-se a um amor adulterino, cujo desenlace é trágico e culmina na morte da protagonista. A partir desse núcleo narrativo, Flaubert passa em revista a sociedade de seu tempo, expondo com dureza o asfixiante universo da existência moderna numa sociedade já plenamente burguesa, cujo traço essencial parecia-lhe ser a hipocrisia. Madame Bovary causou celeuma e abriu as portas para o Realismo, e em seguida para o Naturalismo de Émile Zola, que radicalizou em muito o método e as propostas realistas. Além disso, este romance produziu uma série de “imitações”, das quais O Primo Basílio, de Eça de Queirós, pode ser um exemplo. Aliás, a protagonista do romance lusitano, Luísa, já foi chamada de a “Bovary portuguesa”. Ecos de Madame Bovary são perceptíveis até em Machado de Assis - apesar da acentuada particularidade da obra machadiana frente aos modelos realistas e naturalistas - em romances como D. Casmurro e Quincas Borba, nos quais o adultério, suposto ou insinuado, é elemento essencial para a compreensão do tênue limite entre o indivíduo e a sociedade. Assim , a crítica literária chegou até mesmo a criar um vocábulo para expressar essa avassaladora importância e constante reiteração do romance francês: o bovarismo. Desta forma, tornam-se evidentes as intenções satíricas de Hilário Tácito, pois, apesar de o enredo de Madame Pommery não apresentar semelhanças, ainda que superficiais, com o do romance francês, os dois livros compartilham a mesma categoria de “romances de costumes”, na qual a crítica social é o elemento preponderante. A distância entre estas duas obras é imensa, mas com certeza a escolha do título serve muitíssimo bem às intenções satíricas e desabusadas de Hilário Tácito, pois o bovarismo, levado às últimas conseqüências e associado ao método determinista dos naturalistas do século XIX, produziu uma literatura de gosto duvidoso, quase alçada à condição de discurso oficial do cientificismo da época. Assim, Hilário Tácito alia-se, por um lado, a uma tradição moderna de crítica social e, por outro, afasta-se de uma literatura pseudo-científica e por demais sisuda e desgastada, fazendo valer a ironia e a sátira como elementos de maior alcance para a compreensão dos complexos mecanismos de uma sociedade como a nossa, que, no início deste século, estava dividida entre as heranças patriarcais e a modernização técnica e social acelerada, o que em essência Madame Pommery busca registrar. |
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Linguagem e estilo Hilário Tácito, Montaigne e Rabelais: paródia e carnavalização Hilário Tácito é um narrador altamente sofisticado e erudito. Seu estilo é marcado por uma sintaxe repleta de volteios e por uma ironia cortante, acompanhadas de constantes digressões de caráter filosófico. José Maria de Toledo Malta era um profundo conhecedor da obra de Montaigne, filósofo da renascença francesa, e de seus Essais, que representam uma profunda renovação do pensamento filosófico no século XVI. Montaigne foi, acima de tudo, um grande moralista, um observador agudo dos comportamentos humanos e de suas contradições inextricáveis. Ele se enquadra em uma larga tradição de moralistas franceses, que inclui pensadores como Voltaire, La Rochefoucauld e Vauvernagues, e representa o pensamento filosófico da Renascença francesa, que recoloca a razão como elemento essencial à compreensão do mundo e da condição humana. Seu estilo é irônico e bastante humorado, revelando um ceticismo típico do racionalista que se debate com a crise dos valores tradicionais no início da idade moderna. Sua filosofia e sua moral ultrapassam os estreitos limites da escolástica medieval, incapaz de avaliar plenamente uma nova dinâmica social, oriunda da burguesia e do mercantilismo nascentes. Outro grande autor do período, e que também é referência importante para Hilário Tácito, é Rabelais e sua obra Gargantua, que tem o riso e o humor como elementos essenciais à crítica social e à compreensão do comportamento humano. O universo ficcional de Rabelais é regido pela lógica dos avessos, ou seja, pela ironia radical que beira ao absurdo e ao nonsense, e inaugura uma renovação na tradição literária européia, pois sua obra possui um dinamismo baseado na ruptura dos estilos tradicionais. Nela, o alto e o baixo se misturam, o sublime e o grotesco caminham juntos, o popular e o erudito se fundem; Rabelais reintroduz o riso como forma de crítica radical. Tais características permitiram ao crítico Mikhail Bahktin desenvolver o conceito de carnavalização, que seria a essência do processo formal da obra rabelaisiana. Na dicção narrativa de Hilário Tácito, temos a herança dessa tradição francesa que torna o riso e o humor uma forma de crítica aguda da sociedade de seu tempo. Tácito compõe bem esta galeria de moralistas ilustrados, cuja visão desabusada e saborosamente crítica é impiedosa na descrição e na análise dos comportamentos de seus contemporâneos. Madame Pommery apresenta uma riqueza estilística notável, pautada sobretudo pela intertextualidade, presente no uso da paródia como elemento dinamizador do discurso literário. Assim, desde o título até o núcleo temático da obra, desfilam uma série de referências culturais, literárias e filosóficas brasileiras e européias. Esse romance bem humorado brinca livremente com o estilo de autores ilustres, tais como Flaubert, Rabelais, Montaigne e Machado de Assis e, tanto morfológica como sintaticamente, explora a linguagem erudita e sofisticada dos escritores parnasianos e decadentistas, plena de floreios estilísticos contaminados de esteticismo. O narrador faz uso do registro coloquial e de um certo “multilingüismo”, uma vez que registra a fala da protagonista espanhola e os hábitos de uma sociedade que se quer culta e que emprega a língua francesa e o latim como forma de privilégio social. Desta forma, o romance é riquíssimo enquanto registro dos hábitos lingüísticos e das referências culturais da sociedade paulistana no auge da cultura do café. |
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A capa da primeira edição e o pseudônimo de José Maria de Toledo Malta. Um dos elementos mais interessantes que aproximam o leitor da obra e das intenções do pseudo-autor Hilário Tácito é a capa original da primeira edição de 1920, publicada pela Revista do Brasil, de Monteiro Lobato, amigo íntimo do autor. Veja-se: Nela encontramos, ao centro, uma garrafa de champanhe envolvida pelos louros da vitória, atributo clássico dos heróis e dos poetas. E em torno dela, misturadas a elementos decorativos típicos do art noveau (arabescos, colunas, castiçais, linhas curvas e sinuosas associadas à estilização de elementos florais), vemos quatro inocentes crianças, que bem poderiam ser anjos ou cupidos, carregando outras garrafas de champanhe, numa possível projeção fálica. Acepção que a imagem da garrafa central confirma na sua relação com a coroa de louros. Eis aí a síntese da obra, pois em seguida vamos ler a narrativa da vida da prostituta e cafetina Madame Pommery, dona do bordel Paradis Retrouvé (O Paraíso Reencontrado) e, segundo o irônico narrador Hilário Tácito, uma das ilustres beneméritas do processo de modernização e civilização da Botocúndia (vide a folha de rosto reproduzida no próximo tópico), ou seja, da provinciana São Paulo do início deste século. Assim, é bom lembrar que a Paulicéia aparece associada ao elemento indígena primitivo e arquetípico da civilização brasileira, pois o nome a ela atribuído deriva de Botucudos, uma tribo localizada na bacia do Rio Doce e que usava botoques; esta palavra pode também significar caipira. Porém, um detalhe chama a atenção do leitor mais cuidadoso: uma pequena inscrição ao pé da página do lado esquerdo do desenho: Ao Exmo. Snr. Conselheiro Rui Barbosa A crítica da moral subvertida transmuda-se na ironia, que é a Lógica do avesso. Contudo, só da summa grandeza d’alma, e da serenidade do gênio, atrevo-me a esperar a piedade, e a tolerância, que me hão de relevar a ousadia do gesto humilde com que apresento a V. Exa. frivolidades tão desprimorosas. S. Paulo 15-IV-1920 Hilário Tácito Como podemos verificar, a assinatura e o nome encontrados na capa são os de Hilário Tácito. Assim, José Maria de Toledo Malta parece intensificar, com estes expedientes discretos, a autonomia deste seu pseudônimo, envolvendo o leitor num intencional jogo de despistamento entre a verdade e a ficção, entre a história e a narração, fenômeno bastante explorado pelo autor em muitas digressões ao longo da narrativa: Não suporto, nem por idéia, que se possa algum dia taxar de romance, conto ou novela, uma história verdadeira que, por amor da verdade, tanto trabalho me custou... (p. 69). Assim,
percebemos, a partir da capa e da narrativa, que o verdadeiro personagem
central da obra é o pseudo-autor e narrador Hilário Tácito
que - contraposto à Madame Pommery/personagem-figurino ou rótulo
- apresenta um dinamismo particular, essência mesma da narrativa.
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A folha de rosto Muito interessante é a folha de rosto, que já introduz o leitor na obra. Ei-la: Em Madame Pommery, Hilário Tácito imita o estilo empolado e altissonante dos títulos e das descrições típicas das crônicas históricas da língua, com seus personagens lusitanos (reis, rainhas, príncipes e princesas). Assim, o “estilo alto” (crônica) aqui vem associado ao “assunto baixo” (Madame Pommery e a prostituição), ao qual se quer conferir um certo ar de dignidade e de seriedade, pelo menos em aparência, já que o narrador vai abordar a vida de uma ilustre “brasileira”, o que intensifica o registro satírico. Tal operação tem como efeito assegurar, em aparência, o lado verídico da narrativa, aspecto este - como já dissemos - reiterado ao longo da obra pelo narrador, que insiste em afirmar que sua narração não é romance ou ficção, mas sim crônica histórica. Outro aspecto interessante encontra-se ao fim da página, quando o pseudo-autor dedica a obra às “...associações pensantes de São Paulo”. Aqui o deboche atinge em cheio o academicismo provinciano da Paulicéia, e instaura uma dissonância que percorrerá toda a narrativa, mimetizada na linguagem culta e erudita deste pseudo-autor. Linguagem esta plena dos floreios tão ao gosto do beletrismo parnasiano do início do século. Uma linguagem saturada de referências elegantes e refinadas, enfim, o estilo “recherché” (elaborado) do decadentismo, esnobe e afetado e, na maioria das vezes, puramente esteticista. E tudo isso aplicado a uma matéria que, em príncipio, é escabrosa e indigna para os padrões literários e morais vigentes na época: a meretriz, a cafetina e seu mundo, suas práticas, em suma, o bordel e sua dinâmica particular, um microcosmo que em última análise explicita o funcionamento da sociedade como um todo. A justaposição dos binômios bordel X sociedade, prostituição X civilização, cafetina X coronel, materializada por meio de um “estilo alto”, é muito produtiva enquanto formulação literária, resultado estilístico e penetração no real histórico. Tarefa no mínimo louvável se devidamente contextualizada, e capaz de apontar a argúcia de seu autor, o que de novo o coloca num fluxo cultural que culmina no que de melhor o Modernismo de 22 produziu. A partir do bordel, Hilário Tácito passa em revista a sociedade de seu tempo e as instuições sobre as quais se assenta toda a dinâmica social brasileira nas primeiras décadas do século XX (e que em verdade marca até hoje a nossa estrutura social e mental): o coronelismo e o caciquismo. Porém, não sem um travo às vezes moralista e conservador, sutilmente dissimulado sob a capa de um espírito agudo e desabusado. Madame Pommery tem, pois, o bordel como metáfora e o coronelismo como alvo. |
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Foco narrativo Como já dissemos, talvez o verdadeiro protagonista da obra seja o seu pseudo-autor e narrador. Já no Capítulo I isto se evidencia, quando o próprio narrador admite estar ferindo as regras da arte, pois, antes de falar da suposta protagonista, vai falar de si: Cousa nova há de parecer a muita gente que este livro, cujo propósito declarado é narrar a vida de uma personagem tão principal como Mme.Pommery, logo no começo se extravie do seu reto caminho, trocando assunto de tamanho momento por outro apagado e tão pouco interessante, como seja a personalidade incógnita do autor. (p.33) Assim, percebemos que um narrador de terceira pessoa, onisciente e aparentemente convencional, vai relatar a vida de Mme. Pommery. Porém, ele se reserva ao direito de comentar e dialogar com o suposto leitor, que passa a compor não só como um elemento externo à obra, mas também como uma entidade literária que faz parte do jogo narrativo. O foco, então, se desloca para a primeira pessoa e introduz alguns elementos fundamentais para a composição desta narrativa e do seu insólito narrador, quais sejam: a metalinguagem, o narrador intruso, a intertextualidade, as digressões. Aqui é inevitável a comparação com os narradores da fase madura de Machado de Assis (em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, etc.). A conexão dos estilos é evidente, apesar das diferenças. Assim, este pseudo-autor e narrador intruso passa a conduzir o processo da narração e, em função dos expedientes acima relacionados, a linearidade narrativa vai sendo esgarçada e matizada de tal forma, que a obra às vezes beira o fragmentário, efeito almejado e amplamente desenvolvido pela literatura moderna. Sob este aspecto, a construção de Madame Pommery também é avançada para a sua época, e se encaixa no fluxo de renovação das convenções narrativas romanescas impostas desde o Romantismo e cristalizadas no máquinário narrativo pseudo-científico do Realismo-Naturalismo, aqui francamente abandonadas e desautorizadas. Porém, como bem notou Tristão de Atayde, num dos primeiros ensaios sobre a obra, tais expedientes “...não há dúvida que desviam ou enfraquecem a ação primordial da sátira.” . Assim, há uma tensão permanente entre a matéria narrada e o ritmo da narrativa, o que, mesmo sendo um procedimento avançado para a época, muitas vezes causa-nos a sensação de não estar plenamente desenvolvido, e portanto não se sustentar literariamente. O seu efeito acaba por prejudicar a obra, fazendo-a recair numa certa monotonia e previsibilidade narrativa. Dessa forma, apesar de percebermos a audácia da experiência frente aos padrões narrativos vigentes da época, somos obrigados a concordar com as palavras de Tristão de Atayde. Aquilo que em Hilário Tácito parece uma experiência no meio do caminho, ou seja, a subversão dos esquemas narrativos oitocentistas, encontrará sua plenitude em obras como Macunaíma, de Mário de Andrade e Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade. Devemos ainda reforçar que esta “volubilidade” do narrador de Hilário Tácito aproxima-se da melhor produção machadiana, que por sua vez é um dos raros exemplos de dissonância em relação às convenções literárias e romanescas dominantes no fim do século XIX e início do XX. |
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Considerações Finais Madame Pommery, apesar de ser um livro pouco conhecido, bem como o seu autor, é uma obra interessante e capaz de suscitar importantes debates sobre questões fundamentais da vida paulistana, em particular, e da vida brasileira, em geral, no início deste século. Muitas das questões levantadas são atualíssimas e deitam raízes nas estruturas sociais e culturais brasileiras, tais como o coronelismo e o caciquismo, que dominam a nossa vida política. Esta obra é realmente única e riquíssima, tanto no que diz respeito à linguagem e ao estilo, quanto às intenções que a movem. Porém, é perceptível uma incompletude típica da obra que promete muito e não consegue realizar plenamente o anunciado, fenômeno não incomum entre os autores do Pré-Modernismo. Apesar do interesse do tema e da matéria narrada picante e estimulante; apesar da linguagem agilíssima e capaz de incorporar diversos registros lingüísticos, que vão desde o beletrismo parnasiano até o coloquialismo contaminado de estrangeirismo e já quase modernista; apesar do estilo repleto de torneios elegantes e auto-irônicos, que constroem uma prosa requintada e sofisticada, próxima do melhor ensaísmo moderno; apesar de todas as suas qualidades, Madame Pommery parece naufragar enquanto objeto estético “autônomo”, cuja estrutura se justifica em si mesma, construindo um mundo estruturado em leis próprias, as quais são domínio da ficção e da arte. Não é, pois, sem motivos, que este livro - repito, apesar de todas as suas qualidades - caiu no esquecimento, e não se constitui em obra referencial e indispensável para a compreensão da cultura e da produção literária brasileira como um todo. Madame Pommery é a produção de um autor bissexto, retirado do esquecimento dentro de um projeto de redefinição do lugar ocupado pelo Pré-Modernismo na tradição literária. E, como tal, é um bom exemplo dos impasses e contradições do período. Nele, o que há de melhor é justamente o que está por ser feito de forma sistemática. E, sem dúvida alguma, Mário de Andrade e Oswald de Andrade não se descuidaram desta tarefa, e onde Madame Pommery falha, eles acertam, uma vez que livros como Macunaíma e Memórias Sentimentais de João Miramar são tão críticos e virulentos quanto a obra de Hilário Tácito. São, porém, esteticamente muito mais radicais, e muito melhor acabados enquanto forma e linguagem. Assim, sem perder de vista o panorama mais amplo da cultura brasileira, se não podemos alçar Madame Pommery à condição de obra-prima, também não podemos ignorá-la, e muito menos as questões que ela suscita. |
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1. Edições consultadas 1.1. Tácito, Hilário. Madame Pommery. São Paulo, Biblioteca da Academia Paulista de Letras, 1977. 1.2. Tácito, Hilário. Madame Pommery. Introdução, estabelecimento do texto e notas por Júlio Castañon Guimarães. 4a. edição. São Paulo/Rio de Janeiro, Editora da Unicamp/ Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992. |
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2. Geral 2.1. Andrade, Oswald. Primeiro caderno do Aluno de Poesia Oswald de Andrade. São Paulo, Cículo do Livro, s/d. 2.2. Barreto, Lima. “Madame Pommery” in Impressões de leitura. São Paulo, Brasiliense, 1961. 2.3. Bosi, Alfredo. Pré-Modernismo in História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo, Cultrix, 1982. 2.4. Bosi, Alfredo. O Pré-Modernismo (Vol. V). São Paulo, Cultrix, 1966. 2.5. Brait, Beth. “Madame Pommery: humor, ironia e civilização” in Ironia em perspectiva polifônica. Campinas, Editora da Unicamp, 1996. 2.6. Lima, Alceu Amoroso. “Sátira” in Primeiros Estudos. Rio de Janeiro, Agir, 1948. 2.7. Schwarz, Roberto. “A carroça, o bonde e o poeta modernista” in Que Horas são? São Paulo, Companhia das Letras, 1988. 2.8. Süssekind, Flora. Cinematógrafo das Letras. São Paulo. Companhia das Letras, 1987. |

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