
Em seguida, o narrador apresenta a casa de Manuel Pescada, “um português
de uns cinqüenta anos, forte, vermelho e trabalhador. Diziam-no afilado
para o comércio e amigo do Brasil. Gostava da sua leitura nas horas
de descanso, assinava respeitosamente os jornais sérios da província
e recebia alguns de Lisboa. Em pequeno meteram-lhe na cabeça vários
trechos do Camões e não lhe esconderam de todo o nome de
outros poetas. Prezava com fanatismo o Marquês de Pombal, de quem
sabia muitas anedotas e tinha uma assinatura no Gabinete Português,
a qual lhe aproveitava menos a ele do que à filha, que era perdida
pelo romance.”
É essa filha, Ana Rosa, leitora ávida de romances, como a
Emma Bovary, de Flaubert, ou a Luísa do Primo Basílio,
de Eça de Queirós, que Manuel Pescada quer fazer casar-se
com seu colaborador, o caixeiro Luís Dias, rapaz promissor no comércio,
mas que é assim descrito:
“O Dias, que completava o pessoal da casa de Manuel Pescada, era um tipo
fechado como um ovo, um ovo choco que mal denuncia na casca a podridão
interior. Todavia, nas cores biliosas do rosto, no desprezo do próprio
corpo, na taciturnidade paciente daquela exagerada economia, adivinhava-se-lhe
uma idéia fixa, um alvo para o qual caminhava o acrobata, sem olhar
dos lados, preocupado, nem que se equilibrasse sobre um corda tesa. Não
desdenhava qualquer meio para chegar mais depressa aos fins; aceitava,
sem examinar, qualquer caminho desde que lhe parecesse mais curto; tudo
servia, tudo era bom, contanto que o levasse mais rapidamente ao ponto
desejado. Lama ou brasa -- havia de passar por cima; havia de chegar ao
alvo -- enriquecer. Quanto à figura, repugnante: magro e macilento,
um tanto baixo um tanto curvado, pouca barba, testa curta e olhos fundos.
O uso constante dos chinelos de trança fizera-lhe os pés
monstruosos e chatos quando ele andava, lançava-os desairosamente
para os lados, como o movimento dos palmípedes nadando. Aborrecia-o
o charuto, o passeio, o teatro e as reuniões em que fosse necessário
despender alguma coisa; quando estava perto da gente sentia-se logo um
cheiro azedo de roupas sujas.”
A descrição, um dos momentos mais claramente naturalistas
do romance, não deixa dúvidas quanto ao aspecto repugnante
do caixeiro. As personagens caricaturais dominam o romance. O Realismo-naturalismo
vai abusar das caricaturas para ressaltar o lado apodrecido das personagens
e da sociedade retratada.
A IDEALIZAÇÃO
ROMÂNTICA
A jovem Ana Rosa sonhava com um casamento romântico, “sonhava umas
criancinhas louras, ternas, balbuciando tolices engraçadas e comovedoras,
chamando-lhe ‘mama!’” E lembrava-se sempre do conselho que lhe dera a mãe
ao leito de morte: “não consintas nunca que te casem, sem que ames
deveras o homem a ti destinado para marido. Não te cases no ar!
Lembra-te que o casamento deve ser sempre a conseqüência de
duas inclinações irresistíveis. A gente deve casar
porque ama, e não ter de amar porque casou. Se fizeres o que te
digo, serás feliz!" Assim, Ana Rosa vai formando a imagem de um
herói romântico que virá salvá-la da mediocridade
da vida em São Luís do Maranhão.
É nesse ambiente que chega a São Luís o jovem advogado
Raimundo, sobrinho há muito afastado de Manuel Pescada. Sua descrição
em tudo contrasta com a de Luís Dias:
“Raimundo tinha vinte e seis anos e seria um tipo acabado de brasileiro
se não foram os grandes olhos azuis, que puxara do pai. Cabelos
muito pretos, lustrosos e crespos; tez morena e amulatada, mas fina; dentes
claros que reluziam sob a negrura do bigode; estatura alta e elegante;
pescoço largo, nariz direito e fronte espaçosa. A parte mais
característica da sua fisionomia era os olhos -- grandes, ramalhudos,
cheios de sombras azuis; pestanas eriçadas e negras, pálpebras
de um roxo vaporoso e úmido; as sobrancelhas, muito desenhadas no
rosto, como a nanquim, faziam sobressair a frescura da epiderme, que, no
lugar da barba raspada lembrava os tons suaves e transparentes de uma aquarela
sobre papel de arroz.
Tinha os gestos bem educados, sóbrios, despidos de pretensão;
falava em voz baixa, distintamente sem armar ao efeito; vestia-se com seriedade
e bom gosto; amava as artes, as ciências, a literatura e, um pouco
menos, a política.”
Raimundo corresponde perfeitamente ao protótipo do herói
romântico, pelo qual Ana Rosa tanto esperava. Sua descrição
contrasta em tudo com a de Luís Dias. Ambos são, no entanto,
personagens planas, superficiais, e servem apenas para que o autor prove
sua tese anti-racista.
EM BUSCA DO PASSADO
ESCONDIDO
Raimundo saíra criança de São Luís para Lisboa.
“Em toda a sua vida, sempre longe da pátria, entre povos diversos,
cheia de impressões diferentes tomada de preocupações
de estudos, jamais conseguira chegar a uma dedução lógica
e satisfatória a respeito da sua procedência. Não sabia
ao certo quais eram as circunstâncias em que viera ao mundo, não
sabia a quem devia agradecer a vida e os bens de que dispunha. Lembrava-se
no entanto de haver saído em pequeno do Brasil e podia jurar que
nunca lhe faltara o necessário e até o supérfluo.”
Esse jovem rico e virtuoso regressa a São Luís, depois de
anos na Europa, formado e com o intuito de desvendar o mistério
de seu passado. Antes, passara um ano no Rio de Janeiro e agora volta a
São Luís para rever seu tio e protetor distante, Manuel Pescada.
Raimundo é bem recebido pela família do tio, com exceção
da sogra de Manuel, a racista radical Dona Maria Bárbara. Estranha
alguns olhares enviesados da população, mas imagina-os fruto
do estranhamento causado por um forasteiro.
O sedutor advogado, como não poderia deixar de ser, logo cai
nas graças de sua prima Ana Rosa que, arrebatada, declara-lhe seu
amor. Raimundo corresponde à paixão da prima, mas os jovens
encontram fortes obstáculos. Principalmente a oposição
de Manuel Pescada, que queria a filha casada com Luís Dias, da avó
Maria Bárbara, racista intransigente e do Cônego Diogo, velho
amigo da casa e adversário não declarado e ardiloso de Raimundo.
Acontece que, ao contrário dos amantes, seus três grandes
opositores conheciam as raízes negras de Raimundo. Aos poucos o
leitor vai tomando conhecimento das origens do herói, que, no entanto,
permanece ignorando tudo.
O SEGREDO ENCOBERTO
Raimundo era filho do irmão de Manuel Pescada, José Pedro
da Silva, com sua escrava negra Domingas. Depois de seu nascimento, José
Pedro casou-se com Quitéria Inocência de Freitas Santiago,
mulher branca e impiedosa. Enciumada com a atenção especial
que José Pedro dedicava ao pequeno Raimundo e à escrava Domingas,
Quitéria ordenou que a negra fosse açoitada e que suas partes
genitais fossem queimadas.
José Pedro, indignado com tamanha crueldade, leva o filho
para a casa do irmão em São Luís. Voltando à
fazenda, flagra a mulher e o então jovem e sedutor Padre Diogo em
pleno adultério. Enfurecido, José Pedro mata Quitéria
e forma um pacto de cumplicidade com o Padre Diogo: esconderão a
culpa um do outro. Desgraçado e doente, José Pedro refugia-se
na casa do irmão. Ao se restabelecer, resolve voltar à fazenda,
mas, no meio do caminho, é assassinado por ordem do Padre
Diogo, que já começara a insinuar-se também na casa
de Manuel Pescada.
O DESFECHO
Obcecado por desvendar suas origens, Raimundo insiste em visitar a fazenda
onde nascera. Após diversos adiamentos, seu tio finalmente o leva
até a Fazenda São Brás. No caminho, o mulato começa
a obter as primeiras informações sobre o passado trágico
de seus pais. Ao pedir ao tio a mão de Ana Rosa em casamento, vê-se
recusado. Perplexo, Raimundo acaba descobrindo que a recusa se deve a suas
origens negras. Na fazenda, Raimundo é abordado, à noite,
por uma velha negra de aspecto fantasmagórico, que o quer abraçar.
Assustado, por pouco não mata a estranha aparição.
No caminho de volta a São Luís, descobre que se tratava de
sua mãe, Domingas.
Ao retornar à capital do Maranhão, Raimundo resolve voltar
para o Rio de Janeiro. Não suporta mais viver com o tio e muda-se
de sua casa, enquanto prepara-se para viajar. Pouco antes do embarque,
manda uma carta a Ana Rosa confessando seu amor. O amor pela prima o impede
de partir. Os amantes se encontram e Ana Rosa acaba engravidando. Contra
tudo e contra todos, armam um plano de fuga. No entanto, o Cônego
Diogo usa das confissões de Ana Rosa e da colaboração
subserviente do caixeiro Dias, que intercepta as cartas do casal, para,
ardilosamente, impedir a concretização da fuga.
No momento em que
planejavam partir, os amantes são surpreendidos. O Cônego
Diogo orquestra o escândalo e finge-se de protetor do casal. Raimundo
volta para casa atordoado e, ao abrir a porta de casa, é atingido
nas costas por um tiro disparado por Luís Dias, com uma pistola
que lhe emprestara o Cônego Diogo.
Ana Rosa, desolada, aborta o filho de Raimundo. “A nova firma comercial,
Silva e Dias, nasceu entretanto, no meio da mais completa prosperidade.”
Seis anos depois, no Clube Familiar, vemos Ana Rosa e seu marido
Dias saindo de uma recepção oficial:
"O par festejado eram o Dias e Ana Rosa, casados havia quatro anos.
Ele deixara crescer o bigode e aprumara-se todo; tinha até certo
emproamento ricaço e um ar satisfeito e alinhado de quem espera
por qualquer vapor o hábito da Rosa; a mulher engordara um pouco
em demasia, mas ainda estava boa, bem torneada, com a pele limpa e a carne
esperta.
Ia toda se saracoteando
muito preocupada em apanhar a cauda do seu vestido, e pensando, naturalmente,
nos seus três filhinhos, que ficaram em casa a dormir.
-- Grand'chaine,
double, serré! berravam nas salas.
O Dias tomara o
seu chapéu no corredor e, ao embarcar no carro, que esperava pelos
dois lá embaixo, Ana Rosa levantara-lhe carinhosamente a gola da
casaca.
-- Agasalha bem
o pescoço, Lulu! Ainda ontem tossiste tanto à noite, queridinho!..."
A ironia final, bem a gosto naturalista, coloca por terra toda a idealização
romântica de Ana Rosa e Raimundo. Morto o primo, a prima acaba por
se casar com seu assassino, e parece levar, ao lado do marido que tão
ferozmente rejeitara anteriormente, uma feliz e próspera vida burguesa.
O mal triunfa, associado à igreja corrupta e ao comércio
burguês.
Aluísio Tancredo Gonçalves Azevedo nasceu no dia 14 de abril
de 1857, em São Luís do Maranhão. Sua mãe,
dona Emília Amália Pinto de Magalhães, havia, corajosamente
para a época, abandonado o primeiro marido, que a traía abertamente,
e com quem fora obrigada a se casar aos 17 anos, por imposição
familiar. Vivendo com o comerciante e representante consular português
David Gonçalves de Azevedo, teve cinco filhos, dos quais Artur de
Azevedo, o teatrólogo, foi o primeiro e Aluísio Azevedo,
o segundo.
No século XIX, São Luís do Maranhão era
um centro de convergência de capital e de mão-de-obra escrava,
graças à economia do algodão. Tornou-se, assim, um
pólo de prosperidade econômica e cultural. Porém, a
cidade era bastante conservadora e dona Emília causou um grande
escândalo por viver com o pai de Aluísio sem a aprovação
da Igreja.
Desde criança,Aluísio
Azevedo demonstrava habilidades artísticas, principalmente no desenho.
Por isso, a família matriculou-o em um curso de artes plásticas.
Animado pelo sucesso que seu irmão Artur Azevedo estava fazendo
na corte, Aluísio, aos 19 anos, resolve ir para o Rio de Janeiro.
A corte era, na época, o centro das idéias liberais
e em todo lugar se discutiam o abolicionismo e a causa republicana.
Durante dois anos, Aluísio foi caricaturista de jornais como O
Mequetrefe, Fígaro e Zig-Zag. Suas charges já
faziam bastante sucesso junto ao público quando foi obrigado a retornar
para São Luís devido à morte do seu pai, em 1878.
Em São Luís, passa a produzir crônicas e comentários
para a imprensa local e conclui um romance que iniciara no Rio de Janeiro,
com o título de Uma Lágrima de Mulher. O livro foi
escrito em um estilo romântico bastante piegas, no entanto muito
elogiado por seus conterrâneos. Ajuda, também, a lançar
um periódico anticlerical, O Pensador e entra em contato
com as obras de Eça de Queirós: O Crime do Padre Amaro
(1875) e O Primo Basílio (1878).
Mas não são suas charges, crônicas ou seu primeiro
romance que vão produzir novo escândalo na cidade e lhe dar
renome nacional, mas, sim, a publicação, em 1881, do romance
O Mulato, baseado na vida e nos costumes da sociedade maranhense.
O Mulato, primeiro romance naturalista da Literatura brasileira, causou
tanto furor que obrigou o autor a deixar São Luís e a se
instalar novamente na corte. A indignação foi tanta que uma
revista da época, porta-voz do clero conservador, mandou o escritor
abandonar a Literatura e dedicar-se à agricultura: “À
lavoura, meu estúpido! À lavoura! Precisamos de braços
e não de prosas em romances! Isto sim é real. A agricultura
felicita os indivíduos e enriquece os povos! à foice! e à
enxada!”.
No entanto, no resto do país, a obra fez bastante sucesso e, com
o dinheiro obtido com a venda de 2 mil exemplares do livro, Aluísio
retornou ao Rio de Janeiro.
Na corte, graças à fama conquistada, Aluísio Azevedo
passa a colaborar para os jornais, atividade que desenvolve intensamente
por muito tempo. Mesmo reclamando de ser “um escravo das Letras”, pois
o dinheiro que ganhava tanto com a Imprensa quanto com a Literatura dava
apenas para “não morrer de fome”, Aluísio construiu, nesse
período, uma sólida carreira literária, publicando
obras importantes, como Casa de Pensão (1884) e O Cortiço
(1890). Foi, assim, o primeiro escritor brasileiro a viver exclusivamente
de seu ofício. Para isso, produziu romances de folhetim ao gosto
romântico, obras que considerava “comerciais”, e romances naturalistas,
obras que considerava “artísticas”.
Em 1896, tornou-se cônsul através de concurso e abandonou
a vida de escritor. Na sua nova profissão, serviu em Vigo e Nápoles
(Itália), depois no Japão e, finalmente, em Buenos Aires
(Argentina), onde faleceu em 1913. Estava com 55 anos e morreu ao lado
da amante Pastora Luquez, argentina com quem vivera seus últimos
dez anos. Durante os dezoito anos de serviço diplomático,
não mais escreveu ou publicou livro algum, nem gostava de que lhe
mencionassem a sua antiga carreira de romancista, que o tornara tão
famoso e celebrado.
Além de romances, Aluísio de Azevedo deixou publicados contos
e peças de teatro, em colaboração.


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