
O conflito

O exílio
Iracema acompanha Martim e Poti e passa a morar com eles no litoral. Durante
algum tempo, eles são muito felizes, e a alegria se completa com
a gravidez de Iracema. Porém, Martim acaba por “saturar-se de
felicidade” e seu interesse pela esposa e pela vida ao seu lado começa
a esfriar. Iracema se ressente da frieza do marido e sofre. Martim se ausenta
com freqüência em caçadas e batalhas contra os inimigos
dos pitiguaras. Enquanto guerreia, nasce seu filho, que Iracema chama de
Moacir, que significa “nascido do meu sofrimento, da minha dor”.
Iracema dá ao filho o nome indígena correspondente ao nome
hebraico Benoni, que também significa “filho de minha dor”.
Este é o nome dado por Raquel, mulher do patriarca bíblico
Jacó, ao seu último filho. Raquel morre depois de dar à
luz. Mas Jacó muda o nome do menino para Benjamim. Os filhos de
Jacó dão origem às tribos que formarão a nação
Israel, assim como o filho de Iracema representa o início de uma
nação.
Solitária e saudosa, Iracema tem dificuldade para amamentar o filho
e quase não come. Desfalece de tristeza. Martim fica longe de Iracema
durante oito luas (oito meses) e, quando volta, encontra Iracema à
beira da morte. Ela entrega o filho a Martim, deita-se na rede e morre,
consumida pela dor. Poti e Martim enterram-na ao pé do coqueiro,
à beira do rio. Segundo Poti: “quando o vento do mar soprar nas
folhas, Iracema pensará que é tua voz que fala entre seus
cabelos.”
O lugar onde viveram e o rio em que nascera o coqueiro vieram a ser chamados,
um dia, pelo nome de Ceará.
Martim partiu das praias do Ceará levando o filho. Alencar comenta:
“O primeiro cearense, ainda no berço, emigrava da terra da pátria.
Havia aí a predestinação de uma raça?”
O guerreiro branco volta alguns anos depois, acompanhado de outros brancos,
inclusive um sacerdote “para plantar a cruz na terra selvagem”.
Começa a colonização e a narrativa termina: “Tudo
passa sobre a terra.”
O NARRADOR
O romance é narrado na terceira pessoa, mas o narrador está
longe de se manter neutro e mero observador. Abundam os adjetivos reveladores
de admiração, principalmente em referência à
natureza brasileira e à Iracema. Em alguns momentos o narrador arrebatado
chega a revelar-se na primeira pessoa: “O sentimento que ele pôs
nos olhos e no rosto, não o sei eu.”
Tais arroubos justificam-se pela colocação, no início
da obra, de que essa é "uma história que me contaram nas
lindas vargem onde nasci". Assim, Alencar justifica a intromissão
da voz na primeira pessoa em uma obra narrada na terceira.
O INDIANISMO
O índio começou a ser adotado como tema literário
no Brasil pelos árcades, principalmente Basílio da Gama –
que via o índio como “homem natural”, e Santa Rita Durão
– para quem o índio era apenas o “comedor de carne humana, que só
o Cristianismo salvaria”.
A busca de uma “poesia
americana”
Já no Romantismo, o culto do passado e o nacionalismo literário
permitiram aos escritores cultivarem a chamada “poesia americana”, que
se valia da natureza, da História, de cenas e de costumes nacionais,
fórmula em que o Indianismo se adequava perfeitamente.
Os escritores mais expressivos do Indianismo, nesse período, foram,
na poesia, Gonçalves Dias, com poemas como I-Juca Pirama,
Marabá e Leito de Folhas Verdes e, na prosa, José
de Alencar, com romances como O Guarani, Iracema e Ubirajara.
A corrente indianista foi muito prestigiada e vários poetas tentaram
escrever o “poema americano” por excelência, como Gonçalves
de Magalhães com o seu poema longo A Confederação
dos Tamoios, que originou uma célebre polêmica, em que
até o Imperador participou.
A polêmica
Alencar foi o protagonista, em 1856, dessa polêmica acalorada
sobre o papel do índio na literatura brasileira. O introdutor do
romantismo entre nós, o poeta Gonçalves de Magalhães,
acabara de publicar um poema épico com temática indianista.
Amigo do imperador Dom Pedro II, Magalhães era, de certa forma,
o “poeta oficial” do Brasil naquele momento.
Em uma série de cartas assinadas com o pseudônimo de Ig.,
Alencar critica o artificialismo do tratamento do índio dado por
Gonçalves de Magalhães que, segundo ele, “não está
à altura do assunto”.
Saem, em defesa do poeta, vários amigos seus, entre eles o próprio
imperador Dom Pedro II. A polêmica se desdobra do início de
junho ao final de outubro de 1856.
Podemos mesmo perceber, em alguns pontos das cartas, que Alencar já
pensava em abordar a temática nos seus futuros escritos, associando-a
ao elogio da terra brasileira:
“Digo-o por mim: se algum dia fosse poeta, e quisesse cantar a minha
terra e suas belezas, se quisesse compor um poema nacional, pediria a Deus
que me fizesse esquecer por um momento as minhas idéias de homem
civilizado. Filho da natureza, embrenhar-me-ia por essas matas seculares;
contemplaria as maravilhas de Deus, veria o sol erguer-se no seu mar de
ouro, a lua deslizar-se no azul do céu; ouviria o murmúrio
das ondas e o eco profundo e solene das florestas.”
Mas não seria através da poesia que Alencar haveria de “cantar
a minha terra e suas belezas”. Ainda na polêmica sobre A Confederação
dos Tamoios, ele critica o uso de gêneros poéticos clássicos
para descrever o índio brasileiro:
“Escreveríamos um poema, mas não um poema épico;
um verdadeiro poema nacional, onde tudo fosse novo, desde o pensamento
até a forma, desde a imagem até o verso. A forma com que
Homero cantou os gregos não serve para cantar os índios;
o verso que disse as desgraças de Tróia e os combates mitológicos
não pode exprimir as tristes endeixas do Guanabara, e as tradições
selvagens da América. Por ventura não haverá no caos
incriado do pensamento humano uma nova forma de poesia, um novo metro de
verso?”
Desde as primeiras páginas de Iracema, fica claro que o seu autor
procura colocar essas idéias em prática. Alencar adota o
gênero do romance, mas o faz com um cuidado na construção
das imagens e com a musicalidade da linguagem que levaram críticos
como Machado de Assis a considerá-lo mais um “poema em prosa”
do que propriamente um romance. E levaram Haroldo de Campos a afirmar que:
“O maior poeta indianista (o único plenamente legível
hoje…) foi um prosador: José de Alencar.” Seguindo a trilha
aberta por Augusto Meyer, que já havia observado: “Bastaria Iracema
para consagrá-lo o maior criador da prosa romântica, na língua
portuguesa, e o maior poeta indianista.”
Desdobramentos
No parnasianismo, o índio aparece raramente – um exemplo é
o poema A Morte de Tapir, de Olavo Bilac – e simplesmente desaparece
na poesia simbolista.
O Modernismo volta ao tema e o utiliza às vezes como ponto de referência
para diretrizes estéticas, como no caso da Poesia “Pau-Brasil”
e da Antropofagia de Oswald de Andrade, com a questão “tupi
or not tupi”. Algumas obras aproveitaram o tema do índio e suas
lendas, como Macunaíma, de Mário de Andrade, Cobra
Norato de Raul Bopp ou Martim Cererê, de Cassiano Ricardo.
Iracema e Macunaíma
O crítico Cavalcanti Proença demonstrou no Roteiro de
Macunaíma as diversas relações de semelhança
entre Macunaíma (1928), de Mário de Andrade, e Iracema.
Entre essas destacam-se as semelhanças entre as personagens de Iracema
e de Ci, a mãe do mato:
"Ci aromava tanto que Macunaíma tinha tonteiras de moleza" (M.A.)
-- "Todas as noites a esposa perfumava seu corpo e a alva rede, para que
o amor do guerreiro se deleitasse nela (J. A.). É a rede de cabelos
que torna a Mãe do Mato inesquecível, e é uma rede
que Iracema oferece ao guerreiro branco: -- "Guerreiro que levas o sono
de meus olhos, leva a minha rede também. Quando nela dormires, falem
em tua alma os sonhos de Iracema" (J.A.)
Ambas …não têm leite. O de Ci foi a cobra preta que sugou;
em Iracema o leite não chegava ao seio, diluído nas lágrimas
de saudade. "A jovem mãe suspendeu o filho à teta; mas a
boca infantil não emudeceu. O leite escasso não apojava o
peito" (J. A.). Em Macunaíma, o filho do herói "chupou o
peito da mãe no outro dia, chupou mais, deu um suspiro envenenado
e morreu".
IRACEMA VOANDO
HOJE
A permanência de Iracema no universo cultural brasileiro é
incontestável. Uma das manifestações artísticas
que perpetuam a imagem da virgem dos lábios de mel, mesmo que nem
sempre tão virgem ou idealizada, é a música popular
brasileira contemporânea.
Vejamos dois exemplos de compositores populares que recorrem à imagem
alencariana para compor suas canções:

Índia guajira
já colheu sua noite
Volta para a tribo
meio injuriada,
Uma figueira numa
encruzilhada
Felina, um olho de
paixão danada,
Era Leão, famoso
traficante,
Um outdoor, bandido
elegante,
Que a levou para um
apart-hotel
Que tem em Cuiabá.
Índia, na estrada,
largou a tribo
Comprou um vestido,
aprendeu a atirar,
Índia virada,
alucinada pelo cara-pálida do Pantanal,
Índia guajira
e o traficante
Loucos de amor, trocavam
o seu mel,
Era um amor tipo 45,
E tiroteios rasgando
o vestido,
Em quartos de motel.
Explode o amor, adiós
para o pudor,
Guajira e o traficante
passam a escancarar,
Rolam papéis,
nos bares, nos bordéis,
Os dois de Bonnie
and Clyde, assunto dos cordéis,
Maíra, pivete,
amazônia,
Esqueceu Tupã,
a sem-vergonha...
Dentro de um Cessna,
bebendo champagne
Leão e seu
bando a fazem sua chefona,
Índia fichada,
retrata falada,
A loto esperada pelos
federais,
Mas ela gosta de fotografia
E vira capa dos jornais
do dia,
Enquanto espera uma
tonelada da pura alegria.
Índia, sujeira,
foi dedurada
Por um sertanista
que era amigo seu,
Índia traída
– “mim tô passada” –
Ela lamentava num
mal português,
A Índia, deu
um ganho, num Landau negro,
Chapa oficial, que
era da Funai,
Passou batido pela
fronteira,
Uma rajada de metralhadora...
Morta no Paraguai!
José de Alencar nasceu em 1829, apenas sete anos depois da Independência
do Brasil, em Mecejana, no Ceará. Filho de um ex-padre, que se tornou
presidente da Província do Ceará e Senador do Império,
o jovem Alencar se transfere, com a família, aos nove anos de idade
para a cidade do Rio de Janeiro. Em 1844, aos quinze anos, matricula-se
nos cursos preparatórios à Faculdade de Direito de São
Paulo. Lê, então, o recém publicado romance A Moreninha,
cujo sucesso em muito há de influenciá-lo na decisão
posterior de se tornar romancista.
Em São Paulo, Alencar cursa os primeiros anos da Faculdade de Direito
e começa a publicar seus primeiros textos em algumas revistas estudantis.
Transfere-se, em 1848, para a Faculdade de Direito de Olinda, em Pernambuco.
Em Olinda, na velha biblioteca do Mosteiro de São Bento, encontra
a literatura dos antigos cronistas coloniais, como Gabriel Soares de Sousa
e Pero Magalhães Gandavo.
Anos mais tarde, Alencar ainda se recorda da emoção que foi
a descoberta desses autores do século XVI, que nos dão as
primeiras impressões dos europeus ao encontrarem a natureza e o
índio do Brasil, em cujas páginas já procurava um
tema para desenvolver em sua própria literatura:
“Uma coisa vaga e indecisa, que devia parecer-se com o primeiro broto do
Guarani ou de Iracema, flutuava-me na fantasia. Devorando as páginas
dos alfarrábios de notícias coloniais, buscava com sofreguidão
um tema para o meu romance; ou pelo menos um protagonista, uma cena e uma
época.”
Voltando a São Paulo, após contrair tuberculose, forma-se
em Direito no final de 1850. No ano seguinte, retorna à capital
do país e lá começa a advogar. Não se esquece,
porém, da literatura. Em 1854, começa a escrever uma seção
diária no Correio Mercantil, intitulada Ao Correr da Pena,
em que comenta os mais variados assuntos da vida do Rio de Janeiro e do
país. Esses textos leves de temática cotidiana podem ser
considerados os precursores da crônica moderna, em que se haveriam
de destacar, no século seguinte, escritores como Rubem Braga, Fernando
Sabino e Carlos Drummond de Andrade.
Em 1855, Alencar é um dos fundadores do jornal O Diário
do Rio de Janeiro, do qual é editor-chefe. É através
desse jornal que vai publicar os textos que, logo, o tornarão conhecido
em todo o país. No final do ano de 1856, Alencar decide publicar
um folhetim como “brinde” aos leitores do jornal. Inicia, assim, sua carreira
de romancista. Publica o curto romance Cinco Minutos, que é
recebido por seus leitores com grande simpatia. Estimulado pelo sucesso
do primeiro, logo começa a publicar um segundo romance, A Viuvinha,
cuja publicação interrompe quando, por engano, um companheiro
seu publica o final da história na Revista de Domingo.
Inicia, então, a publicação de O Guarani. Surge,
assim, na literatura nacional, uma nova “estrela colorida brilhante”
– lembrando as palavras de Caetano Veloso na canção Um
Índio. Uma estrela que há de escrever, “numa
velocidade estonteante”, os capítulos do romance do qual descerá
um índio “mais avançado que a mais avançada das
mais avançada das tecnologias” - o apaixonado Peri.
Entre 1857 e 1870, além de publicar diversos romances, entre eles
Lucíola (1862) e Iracema (1865), Alencar foi eleito várias
vezes deputado, Ministro da Justiça entre 1868 e 1870, e dedicou-se
também ao teatro, escrevendo O Demônio Familiar (1857),
As Asas de um Anjo (1858) e A Mãe (1860), entre outras
peças. Em 1870, abandona a política, ressentido, após
ser preterido para a vaga de Senador.
Inicia, então, uma fase de recolhimento: poucos amigos e nenhum
sorriso. Sua produção novelística é intensificada,
agora norteada pelo projeto de descrição do Brasil, anunciado
no prefácio do livro Sonhos d'Ouro (1872). Em 1875, publica
Senhora, um de seus romances mais complexos. Ao morrer, em 1877, Alencar
era considerado o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Principalmente
por Machado de Assis, seu amigo e mais fiel admirador, e que logo o destronaria.
Para Machado: “Nenhum escritor teve em mais alto grau a alma brasileira.”
O próprio Alencar aponta que seus romances se encaixam em um projeto
de descrição global do Brasil. Divide-os em quatro tipos:


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