Estudo
e resumo de
Inocência
do Visconde de
Taunay
por
Frederico
Barbosa
e
Sylmara Beletti
INTRODUÇÃO
Alfred
d’Escragnolle Taunay, sob o pseudônimo de Sílvio Dinarte,
publicou o romance Inocência em 1872, com o subtítulo
de “narrativa campestre”. Baseada em observações do
autor no sertão matogrossense, a obra é um dos pontos altos
do regionalismo romântico brasileiro.
Durante
a década de 1870, uma tendência nacionalista haveria de se
consolidar no romance brasileiro. O público interessava-se cada
vez mais por um romance de aventuras românticas que apresentasse
o cenário brasileiro. Assim, o regionalismo romântico, já
esboçado nas obras de José de Alencar, ganha fôlego
com o surgimento das obras de Franklin Távora (1842-1888), autor
de O Cabeleira (1876) e do Visconde de Taunay (1843-1899),
autor de Inocência.
Essa
observação da realidade regional leva alguns críticos
a considerar Inocência uma obra de antecipação realista,
já escapando aos modelos idealizantes românticos. Lúcia
Miguel Pereira, entretanto, pondera que:
“Não
é (…) Inocência um romance realista, porque só na formação
do ambiente o ousou ser Taunay; as figuras humanas ainda pertencem ao convencionalismo
romântico, isto é, encarnam cada uma um tipo ideal, com todas
as suas características.”
O EXPLORADOR DO CENÁRIO
A história
se passa na “parte sul-oriental da vastíssima província de
Mato Grosso”. O autor abre a narrativa com uma vasta descrição
da estrada que corta a região desde a vila de Santana do Paranaíba
aos “campos de Camapuã” e da natureza que a cerca. Traça
um retrato do “sertão chamado bruto” e do sertanejo que viaja constantemente
por essa estrada e vive nos seus arredores.
O sertanejo
“legítimo” é descrito como um homem “que de nada se arreceia,
consubstanciado como está com a solidão”:
“O
legítimo sertanejo, explorador dos desertos, não tem, em
geral, família. Enquanto moço, seu fim único é
devassar terras, pisar campos onde ninguém antes pusera pé,
vadear rios desconhecidos, despontar cabeceiras e furar matas, que descobridor
algum até então haja varado.
Cresce-lhe o
orgulho na razão da extensão e importância das viagens
empreendidas; e seu maior gosto cifra-se em enumerar as correntes caudais
que transpôs, os ribeirões que batizou, as serras que transmontou
e os pantanais que afoitamente cortou, quando não levou dias e dias
a rodeá-los com rara paciência.”
A descrição
inicial, minuciosa e detalhista, procura traduzir o ambiente do sertão
de Mato Grosso, estabelecendo o cenário onde há de transcorrer
a história. Esse início revela as intenções
regionalistas de Taunay, que procura captar e traduzir a cor local.
APRESENTAÇÃO
DAS PERSONAGENS
É
nesta estrada que a história se inicia, no dia 15 de julho de 1860.
Um homem viaja montado em seu cavalo, distraído e pensativo. Ele
tem “quando muito vinte e cinco anos, presença agradável,
olhos negros e bem rasgados, barba e cabelos cortados quase à escovinha
e ar tão inteligente quanto decidido”. Aproxima-se dele outro viajante,
um “homem já de alguma idade, o recém-chegado era gordo,
de compleição sangüínea, rosto expressivo e franco.
Trajava à mineira e parecia, como realmente era, morador daquela
localidade.” Eles se apresentam e começam a conversar.
O rapaz
chama-se Cirino Fereira de Campos, é “caipira de São Paulo”,
mas foi criado em Ouro Preto (Minas Gerais). Viaja “sem destino certo”,
“curando maleitas e feridas brabas”, precisa ganhar algum dinheiro, pois
tem uma dívida de jogo para saldar. O outro homem é Martinho
dos Santos Pereira, que gosta muito de “prosear”. Ele nasceu em Minas Gerais,
casou cedo, viveu em Diamantina até sua esposa morrer. Vendeu, então,
sua loja de ferragens e, há doze anos, mora “nestes socavões”.
Pereira
convida Cirino para se hospedar em sua “tapera” e, ao saber que ele é
“médico”, informa que tem uma filha que está adoentada e
com febre. Cirino aceita o convite e hospeda-se na casa de Pereira.
O médico do
sertão
Cirino,
na verdade, não era médico. Porém, "em localidade
pequena, de simples boticário a médico não há
mais que um passo" . Seu pai vendia medicamentos e o mandou, aos doze anos,
viver com seu padrinho em Ouro Preto. Lá estudou no Colégio
do Caraça, mas quando o tio morreu, o rapaz foi excluído
do Colégio. Tinha 18 anos e foi “servir de caixeiro numa botica
velha e manhosa”. Aprendeu a receitar e passou a fazer excursões
pelo interior, medicando as pessoas, utilizando-se “de alguns conhecimentos
de valor positivo, outros que a experiência lhe ia indicando ou que
a voz do povo e a superstição ministravam”. O manual em que
se baseava era um guia médico descritivo de doenças e de
uso de medicamentos e emprego de ervas medicinais. Seu autor, Pedro Luís
Napoleão Chernoviz (1740 – 1814), médico polonês, vivera
quinze anos no Rio de Janeiro.
Cirino
era, portanto, “curandeiro, simples curandeiro”, que “ia por toda a parte
granjeando o tratamento de doutor, que gradualmente lhe foi parecendo,
a si próprio, título inerente a sua pessoa e a que tinha
incontestável direito”. No entanto, não era um mal-caráter:
“Bem formado era o coração daquele moço, sua alma
elevada e incapaz de pensamentos menos dignos; entretanto no íntimo
do seu caráter se haviam insensivelmente enraizado certos hábitos
de or-gulho, repassado de tal ou qual charlatanismo, oriundo não
só da flagrante insuficiência científica, como da roda
em que sempre vivera.”
Após
descrever o cenário, Taunay, seguindo esquema dramático elementar,
apresenta os principais atores do drama: Cirino e Pereira. Note-se que
Inocência só irá aparecer depois. Taunay, assim, cria
o suspense quanto à aparição da personagem-título,
que irá deflagrar os conflitos inicialmente apenas sugeridos de
forma vaga.
AVISO PRÉVIO
A casa
de Pereira era dividida em duas partes: um cômodo destinado aos hóspedes,
"todo fechado, com exceção da porta por onde se entrava"
e, nos fundos, a casa da família, vedada "às vistas dos estranhos
e sem comunicação interna com o compartimento da frente".
Depois de comer e descansar, Pereira leva Cirino para que veja a filha
adoentada.
Mas,
antes, avisa que o doutor deve se comportar, pois é muito desconfiado.
Explica que a filha, "Nocência", tem 18 anos, é "muito ariscazinha
de modos, mas bonita e boa deveras... Coitada, foi criada sem mãe,
e aqui nestes fundões". Está "apalavrada" e vai se casar,
por determinação do pai, com Manecão Doca, "um homem
às direitas, desempenado e trabucador como ele só... fura
estes sertões todos e vem tangendo pontas de gado que metem pasmo."
Pereira
faz questão de frisar a sua opinião sobre as mulheres:
"-- Esta obrigação de casar as mulheres é o diacho!...
Se não tomam estado, ficam jururus e fanadinhas...; se casam, podem
cair nas mãos de algum marido malvado... E depois, as histórias!
Hi, meu Deus, mulheres numa casa é coisa de meter medo... São
redomas de vidro que tudo pode quebrar (...) O Manecão que se agüente,
quando a tiver por sua... Com gente de saia não há que fiar...
Cruz! botam famílias inteiras a perder, enquanto o demo esfrega
um olho."
O narrador
interfere neste ponto para condenar "a opinião injuriosa sobre as
mulheres" corrente nos sertões do Brasil, porque esta acarreta,
"além da rigorosa clausura em que são mantidas, não
só o casamento convencionado entre parentes muito chegados para
filhos de menor idade, mas sobretudo os numerosos crimes cometidos, mal
se suspeita possibilidade de qualquer intriga amorosa entre pessoa da família
e algum estranho". Este comentário é um prenúncio
dos acontecimentos que se seguirão e também delimita o “vilão”
da história: o casamento sem amor, pré-determinado pela família
e a visão da mulher como um objeto perigoso e não-confiável.
Depois
de pedir a Cirino para que ele veja a doente, sem olhar para a mulher,
este lhe responde que está acostumado "a lidar com as famílias
e a respeitá-las", ainda que discorde da opinião de Pereira
sobre as mulheres, porque "não há motivo pra tanto desconfiar
delas e ter os homens em tão boa conta".
Na
visão masculina de Pereira e do universo sócio-cultural que
ele representa, “as mulheres não são confiáveis,
porque sujeitas a sucumbir a qualquer sedução, fruto da sua
falta de vivência e daquilo que é considerado a sua fraqueza
interior. Por outro lado, a mulher também é uma perigosa
sedutora, vinculada ao mito do pecado original”, como afirma a crítica
Ilka Brunhilde Laurito. Já Cirino apresenta uma visão igualitária
dos direitos femininos porque pertence a outro universo cultural.
INOCÊNCIA E A IDEALIZAÇÃO
ROMÂNTICA
Cirino
fica encantado com a beleza de Inocência e se apaixona pela jovem,
mas disfarça para que seu pai não note. Ela é assim
apresentada:
“Apesar
de bastante descorada e um tanto magra, era Inocência de beleza deslumbrante.
Do seu rosto irradiava singela expressão de encantadora ingenui-dade,
realçada pela meiguice do olhar sereno que, a custo, parecia coar
por entre os cílios sedosos a franjar-lhe as pálpebras, e
compri-dos a ponto de projetarem sombras nas mimosas faces.
Era o nariz fino, um bocadinho arqueado; a boca pequena, e o queixo admiravelmente
torneado.
Ao erguer a cabeça para tirar o braço de sob o lençol,
descera um nada a camisinha de crivo que vestia, deixando nu um colo de
fasci-nadora alvura, em que ressaltava um ou outro sinal de nascença.”
Além
dos cuidados excessivos de seu pai, Inocência também é
protegida pelo anão Tico. O anão é praticamente mudo,
como diz Pereira: “Não pode falar... isto é, sempre pode
dizer uma palavra ou outra, mas muito a custo e quase a estourar de raiva
e de canseira. Quando se mete a querer explicar qualquer coisa, é
um barulho dos seiscentos, uma gritaria dos meus pecados…” Mesmo assim,
consegue se comunicar muito bem e “é uma espécie de cachorro
de Nocência”.
A descrição
de Inocência revela aquilo que Lúcia Miguel Pereira afirma
sobre a construção das personagens na obra de Taunay:
“Cirino é apenas o amoroso, Inocência a virgem apaixonada,
Pereira o pai cioso da filha, Manecão o sertanejo rude, Meyer o
cientista para quem a vida se resume na sua especialidade, em suma, todas
as personagens são apreciadas tão somente através
do papel que devem representar no entrecho, perdendo algumas vezes por
isso a veracidade. Como observou um crítico, Taunay soube transcrever
a realidade, mas não a pôde criar. ”
O EQUÍVOCO:
AS DUAS BORBOLETAS
Naquela
mesma noite, chegou à casa de Pereira um naturalista alemão,
chamado Guilherme Tembel Meyer, que caça borboletas e as envia para
a Alemanha para serem estudadas. Pereira lhe dá abrigo e acaba por
descobrir que ele tem uma carta de recomendação de seu irmão,
Francisco, que não vê há mais de 40 anos. Decide tratar
o alemão como se fosse da família e o apresenta à
filha.
Meyer,
fascinado pela beleza de Inocência e ignorante dos costumes sertanejos,
faz muitos elogios à jovem, o que deixa Pereira furioso e preocupado.
Com medo de que Meyer “ponha sua filha a perder”, passa a vigiá-lo
de perto, levando-o pessoalmente à mata para encontrar e caçar
os insetos. Desconfiando de Meyer, passa a confiar em Cirino, que aproveita
a oportunidade para ver Inocência e declarar seu amor. Ela também
está apaixonada, mas se sente culpada e tem medo de enfrentar a
fúria paterna: “Se papai aparecesse... não tinha o direito
de me matar?...” A frase demonstra o quanto Inocência se sente propriedade
do pai, e tem seus valores machistas incorporados. Mas a interrogação
reflete também a dúvida suscitada pela paixão a Cirino.
Mais tarde, ela fala:
“—
… nestes dias tenho aprendido muita coisa. Andava neste mundo e dele não
conhecia maldade alguma... A paixão que tenho por mecê foi
como uma luz que faiscou cá dentro de mim. Agora começo a
enxergar melhor... Ninguém me disse nada; mas parece que a minha
alma acordou para me avisar do que é bom e do que é mau...
Sei que devo de ter medo de mecê porque pode botar-me a perder...
Não formo juízo como, mas a minha honra e a de toda a minha
família estão nas suas mãos...”
Enquanto
Meyer está hospedado na casa de Pereira, Cirino consegue conversar
com Inocência à noite na janela de seu quarto, pois Pereira
dorme na casa de hóspedes para melhor vigiar o naturalista. Porém,
Meyer, depois de descobrir uma nova espécie de borboleta e denominá-la
Papilio Innocentia, em homenagem à beleza de Inocência, continua
a sua viagem. E Cirino não tem coragem de falar com Pereira sobre
a jovem, já que ele sempre ameaça matar o homem que lhe “desonrar
a casa”.
Enquanto Meyer caçava borboletas, Cirino podia procurar e conquistar
“a sua borboleta”. Meyer encontra “a sua Inocência” – a Papilio
Innocentia – um “lindíssimo espécime, verdadeiro capricho
da esplêndida natureza daqueles páramos”, e decide partir.
Cirino, então, passa a correr o risco de perder “a sua borboleta”,
a amada Inocência.
A DECISÃO
Como
o noivo de Inocência está para voltar, os dois jovens, desesperados,
decidem que Cirino deve ir à casa do padrinho de Inocência,
Antônio Cesário, tentar convencê-lo a interceder junto
à Pereira em favor do seu amor.
O padrinho
mora “para lá das Parnaíbas, já nos terrenos Gerais”.
Cirino calcula que vai levar uma semana para ir e voltar. Despede-se da
amada, inventa uma desculpa para Pereira e parte em direção
à fazendo de Antônio Cesário. No caminho, cruza com
Manecão, que está indo à casa de Pereira com tudo
pronto para a realização de seu casamento com Inocência.
Cirino
chega à fazenda do padrinho, abre-lhe o coração e
este diz que vai pensar. Combinam, então, que se Antônio resolver
ajudá-los, ele se encontrará com Cirino, num prazo máximo
de oito dias na vila de Santana do Paranaíba e irão juntos
para a casa do compadre Pereira.
Enquanto
isso, Manecão é recebido festivamente por Pereira em sua
casa. No entanto, Inocência está muito triste e parece doente.
Chamada por seu pai para conversar com o noivo, ela diz que não
se lembra de ter concordado com o casamento, afirma que não quer
se casar e seu pai a agride. Pereira acredita ainda que foi Meyer o causador
da sua desgraça. Enquanto decidem quem vai matar o alemão,
o anão Tico comunica a Pereira que ele está enganado, não
fora o alemão o responsável, mas sim Cirino.
Pereira
fica furioso. Manecão o acalma e diz que vai atrás do médico
“desagravar a honra” de ambos.
O DESENLACE
Manecão
segue Cirino durante três dias, enquanto este, sem perceber a sua
presença, vai todos os dias à estrada esperar por Antônio
Cesário. No final do prazo dado pelo padrinho de Inocência,
Cirino estava decidido a se matar se ele não viesse aos seu encontro.
Porém,
quem o encontra é Manecão, que atira nele. Antes de morrer,
Cirino diz que ele matou também à Inocência. Depois,
perdoa Manecão por tê-lo assassinado. Ambos ouvem um cavalo
se aproximando e Manecão foge.
Para
completar a tragédia, quem está chegando é Antônio
Cesário, que finalmente decidira intervir a favor de Inocência
e Cirino. Encontra Cirino agonizando, pergunta quem fez aquilo, mas Cirino
não diz o nome do assassino. Pede a Cesário que diga a Inocência
que morreu por causa dela, que pegue o dinheiro que está em seu
bolso e pague sua dívida, o que sobrar deve ser distribuído
aos pobres, “sobretudo aos morféticos”. Seu último pedido
é para que Cesário prometa que não deixará
Inocência casar com Manecão. Cesário promete e Cirino
morre chamando por Inocência.
A história
termina na Alemanha, em 18 de agosto de 1863, com a aclamação
de Meyer pela Sociedade Geral Entomológica e pela Imprensa, que
elogia “os prodígios entomológicos” recolhidos por ele em
“suas dilatadas peregrinações”. Principalmente, a borboleta
Papilio Innocentia, cujo nome fora dado “em homenagem à beleza de
uma donzela (Mädchen) dos desertos da Província de Mato Grosso
(Brasil), criatura, segundo conta o Dr. Meyer, de fascinadora formosura”.
Naquele
dia, fazia exatamente dois anos que Inocência morrera, “no imenso
sertão de Santana do Paranaíba”.
Há
um parelismo entre o destino da borboleta e de Inocência, como afirma
a crítica Ilka Laurito:
“A borboleta é capturada e morta, para ser exibida na Europa: sai
do seu meio ambiente através da morte. Inocência, prisioneira
e vítima de seu meio, transcende-o e se liberta apenas pela morte.
Ambas representam a idéia de beleza e de fragilidade. Enquanto a
borboleta se eterniza e perpetua o nome de Inocência, espetada pelo
cientista num estojo de colecionador, a personagem do romance é
eternizada pelo romancista que, pode-se dizer, “espeta-a” nas páginas
do livro.”
A LINGUAGEM
O romance
registra, na voz das personagens, a linguagem coloquial, popular, característica
da região. Porém, o seu narrador, onisciente, utiliza-se
da norma culta da língua para contar a história em terceira
pessoa. Taunay destaca, através de grifos e notas explicativas,
as expressões, erros gramaticais e confusões lingüísticas
que as personagens fazem ao dialogar, como podemos notar neste trecho de
conversa entre Meyer e Pereira:
“—
Mas agora me conte, perguntou Pereira com ar de quem queria certificar-se
de coisa posta muito em dúvida, deveras o senhor anda palmeando
estes sertões para fisgar anicetos?
— Pois não, respondeu Meyer com algum entusiasmo; na minha terra
valem muito dinheiro para estudos, museus e coleções. Estou
viajando por conta de meu governo, e já mandei bastantes caixas
todas cheias... É muito precioso!
— Ora, vejam só, exclamou Pereira. Quem havera de dizer que até
com isso se pode bichar? Cruz! Um homem destes, um doutor, andar correndo
atrás de vaga-lumes e voadores do mato, como menino às voltas
com cigarras! Muito se aprende neste mundo! E quer o senhor saber uma coisa?
Se eu não tivesse família, era capaz de ir com vosmecê
por esses fundões afora, porque sempre gostei de lidar com pessoas
de qualidade e instrução... Eu sou assim... Quem me conhece,
bem sabe. Homem de repentes... Vem-me cá uma idéia muito
estrambótica às vezes, mas embirro e acabou-se; porque, se
há alguém esturrado e teimoso, é este seu criado...
Quando empaco, empaco de uma boa vez... Fosse no tempo de solteiro, e eu
me botava com o senhor a catar toda essa bicharada dos sertões.
Era capaz de ir dar com os ossos lá na sua terra... Não me
olhe pasmado, não... Isso lá eu era... Nem que tivesse de
passar canseiras como ninguém... O caso era meter-se-me a tenção
nos cascos... Dito e feito; acabou-se…Fossem buscar o remédio onde
quisessem... mas duvido que o achassem.”
Outros
exemplos são os registros das distorções fonéticas
e das conseqüentes confusões criadas entre o português
e outras línguas, como o alemão e o francês. Meyer
chama seu assistente de Juque, no lugar de Juca, enquanto Juca o chama
de Mochu, corruptela da palavra francesa monsieur. Pereira confunde o nome
de Meyer, freqüentemente lhe tratando por Maia e reproduz o nome do
local de nascimento do alemão, a Saxônia, como saco-sonha.
Pereira
chama Inocência de Nocência, o que, para o crítico Francisco
Manuel Silveira, é intencional, devido à etimologia das duas
palavras. Ele afirma que Taunay quer mostrar que a personagem, personificação
da inocência, terá o destino de nocência, “por ser pivô
de um crime passional”:
“Inocência
(do latim innocentia, ae) significa: inocuidade, candura, pureza, simplicidade,
ingenuidade, qualidade do que é inocente (= inofensivo, inócuo,
sem culpa, isento de malícia, simples, ingênuo, ignorante).
Esta palavra, em latim, é o antônimo de nocentia, ae – o que
é nocente, prejudicial, nocivo, o que causa dano e mal.
(…) A mocinha, na ótica do pai e dos preconceituosos valores sertanejos,
é Nocência, isto é, nocente, danosa, nociva, fonte
do mal. (…) Bem e mal imbricam-se na i(nocência) dos atos, preconceitos
e dogmas das personagens que conflitam porque os valores citadino (Cirino)
e europeu (Meyer) se opõem inocentemente à simplicidade e
ignorância e ingenuidade dos códigos morais sertanejos (Pereira,
Manecão, até mesmo Cesário).
(…) O que representa a inocuidade, o que não é nocivo ou
prejudicial para certos valores éticos, será visto como nocência,
nocividade danosa, por outros códigos morais – e vice-versa.”
A REALIDADE COMO MATÉRIA-PRIMA
Taunay
colheu material para compor muitas de suas personagens e ambientes quando
estava em campanha no Mato Grosso, como conta no livro póstumo (1908),
Reminescências. Vejamos dois exemplos da base documental que
utilizou para criar o romance Inocência.
“No
dia 30 de junho estávamos no vasto rancho do Sr. José Pereira,
bom mineiro que nos acolheu otimamente e era o primeiro morador que encontrávamos
à saída do sertão bruto de Camapuã e à
entrada do de Santana do Paranaíba, um pouco mais habitado.
Acordando indisposto, bem tarde, saí do pouso, chegando, nesse dia
1o de julho, à margem do Rio Sucuriú, afluente volumoso
do Pardo que leva as águas ao Paraná.
Aí vi o anãozinho mudo, mas um tanto gracioso, sobretudo
ágil nos movimentos, que me serviu de tipo ao Tico do meu romance
Inocência.
Passou-nos numa canoa com muito jeito, buscando conversar e tornar-se amável
por meio de frenética e engraçada gesticulação.
Dei-lhe uma molhadurazinha e pôs-se a pular como um cabrito satisfeito
da vida, fazendo-nos muitos acenos de agradecimentos e adeuses com o chapéu
de palha furado, que não esqueci de indicar naquele livro”.
Em
outra passagem das Reminiscências, Taunay descreve como encontrou
abrigo na casa de “um tal João Garcia”, só para descobrir,
espantado, tratar-se de uma “casa de morfético”, em que os habitantes
estavam contaminados com a temível lepra. Ao conversar com
o dono da casa, depara-se com a inspiração para sua personagem
Inocência, e, pouco tempo depois, para o seu amado Cirino.
“Gritou
ele para dentro: - ‘Ó Jacinta, traga duas xícaras’! Dali
a pouco penetrava na saleta uma moça, na primeira flor dos anos,
e tão formosa, tão resplandecente de beleza, que fiquei pasmado,
enleado positivamente de boca aberta.
Afigurava-se-me que um ente sobrenatural havia feito sua aparição
e lembrei-me da frase tão exata e expressiva do grande Goethe, quando
descreve a impressão que causara a entrada de Dorotéia numa
sala: ‘parecia que aquele ambiente acanhado se tornava imenso, e transformava-se
num espaço enorme!’
Tão clara a minha admiração que o velho pôs-se
a rir:
- ‘Então acha bonita a minha neta?’
- ‘Com efeito!’ foi só o que pude responder a esta pergunta, tão
sigular, tão rara e digna de reparo naquelas distantes paragens.
E com olhos embelezados,
segui todos os gestos daquela excepcional sertaneja, que não se
mostrava lá muito acanhada.
Os seus encantos revestiam
aquele quartinho de chão batido e paredes nuas de indizível
e estupendo prestígio!…
- ‘Daqui a três semanas, declarou-me o avô, casa-se com um
primo. Mas o senhor quer ver desgraça? A pobrezinha da inocente
já está com o mal!…’
- E, levantando-lhe um maço de esplêndidos cabelos, mostrou-me
o lóbulo da orelha direita tumefato e arroxeado!
Toda essa radiosa e extraordinária formosura estava condenada a
ser pasto da repugnante lepra!
(…)
Jacinta Garcia deu, pois, nascimento moral a Inocência. Não
levei, porém, a exatidão e maldade a ponto de, também,
desta fazer desgraçada morfética. Não! fora demais!
Do avô tirei o tipo do desconsolado leproso, repelido do rancho de
Pereira, o Mineiro, e conservei-lhe no romance o nome verídico.
Num pouso adiante, no José Roberto, encontrei um curandeiro que
se intitulava doutor ou cirurgião, à vontade, e serviu-me
para a figura do apaixonado Cirino de Campos, atenuando os modos insolentes,
antipáticos daquele modelo, com quem entabulei, por curiosidade,
conversação.
Era homem pretensioso, quase grosseiro e supinamente ignorante, que viajava
com um mundo de drogas para impingi-las, a torto e a direito, aos incautos.”
Perceba-se
que Taunay, tanto no caso de Inocência, de cujo modelo subtraiu a
lepra, seja no de Cirino, transformado, pela imaginação ficcional,
em figura menos insolente, grosseira e ignorante, tornou as personagens
bem mais palatáveis ao gosto romântico do que apresentavam
seus modelos na realidade.
Vida e Obra
Um aristocrata
esclarecido
Alfred
d’Escragnolle Taunay nasceu no Rio de Janeiro, em 22 de fevereiro de 1843,
e faleceu na mesma cidade, em 25 de janeiro de 1899. Seu avô,
o importante pintor Nicolau Antônio Taunay, foi um dos chefes da
Missão Artística francesa, que veio para o Brasil a convite
de D. João VI, em 1818. Seu pai, Félix Emílio Taunay,
barão de Taunay, foi um dos preceptores de D. Pedro II e durante
muito tempo dirigiu a Escola Nacional de Belas Artes. Pelo lado materno,
era neto do conde d’Escragnolle, emigrado da França pelas contingências
da Revolução.
Nesse
ambiente aristrocrático e rico em arte e cultura, Taunay logo se
interessou por literatura, música e desenho. Estudou humanidades
no Colégio Pedro II, onde se bacharelou em Letras em 1858. No ano
seguinte ingressou no curso de Ciências Físicas e Matemáticas
da Escola Militar e tornou-se bacharel em Matemáticas em 1863.
Foi
promovido a segundo-tenente de artilharia em 1864 e inscreveu-se no 2o
ano de Engenharia Militar. Convocado antes de terminar o curso, em 1865,
no início da Guerra do Paraguai, foi incorporado à Expedição
de Mato Grosso como ajudante da Comissão de Engenheiros. Esta experiência
foi fundamental para a maior parte dos seus escritos, inclusive o primeiro,
Cenas de Viagem (1868). Em 1869, foi convidado para ser secretário
do Estado-Maior do Conde d’Eu, comandante-em-chefe das forças brasileiras
em operação no Paraguai. Uma de suas tarefas era redigir
o Diário do Exército, cujo conteúdo foi, em
1870, publicado em livro com o mesmo nome. Após a guerra, terminou
o curso de Engenharia e se tornou professor de geologia e mineralogia da
Escola Militar.
Publicou o seu primeiro
romance, Mocidade de Trajano, em 1871, com o pseudônimo de
Sílvio Dinarte, que usaria na maior parte das suas obras de ficção.
Em 1872, foi publicado, em francês, A Retirada da Laguna,
episódio em que participara na Guerra do Paraguai, e em 1874, foi
publicada a sua tradução em português. Em 1872, além
de A Retirada da Laguna, Taunay publicou o romance Inocência.
Ambos foram elogiados e tornaram seu autor bastante conhecido. Elegeu-se
deputado geral pelo Estado de Goiás neste mesmo ano, mandato renovado
em 1875. De 76 a 77 foi presidente da província de Santa Catarina.
Viajou
para a Europa em 1878, depois da queda do Partido Conservador, do qual
era militante. Voltou ao Brasil em 1880, e iniciou uma fase de intensa
atividade em defesa de medidas como o casamento civil, a imigração,
a libertação gradual dos escravos, a naturalização
automática de estrangeiros. Elegeu-se deputado novamente em1881,
por Santa Catarina. De 1885 a 86, foi presidente do Paraná e lá
implantou a sua política imigratória. Em 86 foi eleito deputado
geral por Santa Catarina e, logo a seguir, senador pela mesma província,
na vaga do Barão de Laguna. Monarquista convicto, defendeu a abolição
dos escravos no Senado. Em 6 de setembro de 1889 recebeu o título
de Visconde. No entanto, sua carreira foi interrompida com a proclamação
da República. Continuou a defender a monarquia através da
imprensa, escrevendo muitos artigos louvando o imperador banido.
Taunay
foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Além de
romances, escreveu narrativas de guerra e viagens, descrições,
recordações, depoimentos, artigos de crítica e escritos
políticos. Foi também pintor, compositor e crítico
de música.
Leia online Inocência
na íntegra: