Ao escrever Quincas Borba (1891), Machado de Assis reutilizou um
personagem já falecido no seu romance anterior, Memórias
Póstumas de Brás Cubas (1881), o filósofo enlouquecido
Quincas Borba. Assim, os romances se interligam não exatamente através
da personagem, mas através da Teoria do Humanitismo que o filósofo
transmite a Rubião, o protagonista do romance.
Também Esaú e Jacó (1904) e Memorial de
Aires (1908) se encontram interligados. Une-os a figura sábia
e diplomática do conselheiro José da Costa Marcondes Aires,
fino observador das sutilezas da psicologia humana.
Na Advertência de Esaú e Jacó lemos:
“Quando o conselheiro Aires faleceu, acharam-se-lhe na secretária
sete cadernos manuscritos, rijamente encapados em papelão. Cada
um dos primeiros seis tinha o seu número de ordem, por algarismos
romanos, I, II, III, IV, V, VI, escritos a tinta encarnada. O sétimo
trazia este título: Último.
A razão desta designação especial não se compreendeu
então nem depois. (…)Era uma narrativa; e, posto figure aqui o próprio
Aires, com o seu nome e título de conselho, e, por alusão,
algumas aventuras, nem assim deixava de ser a narrativa estranha à
matéria dos seis cadernos. (…)
Nos lazeres do ofício, [Aires]escreveu o Memorial, que, aparado
das páginas mortas ou escuras, apenas daria (e talvez dê)
para matar o tempo da barca de Petrópolis.
Tal foi a razão
de se publicar somente a narrativa. Quanto ao título, foram lembrados
vários, em que o assunto se pudesse resumir, Ab ovo, por exemplo,
apesar do latim; venceu, porém, a idéia de lhe dar estes
dois nomes que o próprio Aires citou uma vez:
O enredo de Esaú e Jacó centra-se na história
dos gêmeos Pedro e Paulo, simetricamente opostos. Suas brigas, que
se iniciam no útero materno, estendem-se por toda a vida. Seus temperamentos
são invertidos: Pedro é dissimulado e cauteloso, Paulo é
arrojado e impetuoso. Na política, encontram campo fértil
para dar vazão às suas animosidades: Paulo é republicano
e Pedro monarquista. O primeiro vai cursar Direito em São Paulo,
o segundo Medicina no Rio de Janeiro. Une-os o amor extremado pela mãe,
Natividade, e separa-os a paixão por Flora, a “inexplicável”,
segundo o conselheiro Aires, que se junta à mãe no esforço
de aproximar os rapazes.
Com a morte de Flora, os dois irmãos pareciam rumar para a reconciliação,
logo frustrada. Nem mesmo o último pedido da mãe, que no
leito de morte pede-lhes que sejam amigos, consegue uni-los por muito tempo.
Ao final do romance, Aires constata que sempre foram inimigos e que,
ao que tudo indica, sempre o serão. Em certo momento da narrativa,
o conselheiro afirma que as razões para tantas brigas não
são conhecidas:
“ – Esaú e Jacó brigaram no seio materno, isso é
verdade. Conhece-se a causa do conflito. Quanto a outros, dado que briguem
também, tudo está em saber a causa do conflito, e não
a sabendo, porque a Providência a esconde da notícia humana...”
No entanto, na Bíblia, narra-se que Rebeca, ao sentir que os filhos
brigam em seu útero, pergunta a Deus qual seria a causa e Este responde:
“Duas nações há no teu ventre.” Essa é
a causa a que alude o conselheiro. Pode ser também a causa alegórica
da luta constante de Pedro e Paulo. As duas nações seriam
o próprio Brasil, dividido, na época, entre a Monarquia e
a República e até hoje entre o progresso e o conservadorismo,
entre a sofisticação e a miséria. A figura de Flora,
indecisa entre os dois irmãos, já foi identificada como uma
representação alegórica da própria nação
brasileira “inexplicável”. Seu pai, Batista, é o típico
político fisiológico que muda de partido como quem troca
de camisa, sem ter qualquer convicção política ou
ideológica.
No entanto, Machado de Assis nos fornece outra explicação,
essa psicológica e não alegórica, para as constantes
disputas fraternas. Crianças, ao travarem seu primeiro combate,
recebem doces e beijos e um passeio de carro da mãe ao se reconciliarem.
O narrador conclui o episódio com as seguintes constatações:
“De noite, na alcova, cada um deles concluiu para si que devia os obséquios
daquela tarde, o doce, os beijos e o carro, à briga que tiveram,
e que outra briga podia render tanto ou mais. Sem palavras, como um romance
ao piano, resolveram ir à cara um do outro, na primeira ocasião.
Isto que devia ser um laço armado à ternura da mãe,
trouxe ao coração de ambos uma sensação particular,
que não era só consolo e desforra do soco recebido naquele
dia, mas também satisfação de um desejo íntimo,
profundo, necessário.”
As implicações freudianas são claras: o Complexo de
Édipo revelado na adoração da mãe faz com que
se lancem um contra o outro. É bom lembrar que Machado de Assis
escrevia antes mesmo do termo ser inventado. O mesmo Complexo pode explicar
o fato de ambos se apaixonarem pela mesma mulher.
A COMPLEXIDADE
DO FOCO NARRATIVO
As experimentações com o foco narrativo marcam a fase realista
de Machado de Assis. Em Memórias Póstumas de Brás
Cubas apresenta um “defunto autor”. Esse aparente absurdo confere ao
livro um realismo nunca antes visto em nossas letras. É exatamente
por estar morto que o autor-narrador pode contar com um realismo cruel
as perversidades, covardias e anti-heroísmo que compõem tanto
a sua personalidade quanto as dos que o rodeiam. Em Dom Casmurro,
é a escolha do foco narrativo, centrado no pouco confiável
Bentinho, péssimo observador das sutilezas psicológicas,
que cria a famosa dúvida acerca da traição de Capitu.
A forma de narrar não é menos inovadora ou complexa em Esaú
e Jacó. O autor hipotético da narrativa é o conselheiro
Aires. No entanto, o narrador se apresenta na terceira pessoa. É
como observador que descreve o conselheiro, mas em muitos momentos deixa
transparecer suas opiniões, utilizando da primeira pessoa.
“Não me peças a causa de tanto encolhimento no anúncio
e na missa, e tanta publicidade na carruagem, lacaio e libré. Há
contradições explicáveis. Um bom autor, que inventasse
a sua história, ou prezasse a lógica aparente dos acontecimentos,
levaria o casal Santos a pé ou em caleça de praça
ou de aluguel; mas eu, amigo, eu sei como as coisas se passaram, e refiro-as
tais quais. Quando muito, explico-as, com a condição de que
tal costume não pegue. Explicações comem tempo e papel,
demoram a ação e acabam por enfadar. O melhor é ler
com atenção.”
A arrogância e a impaciência do narrador, que tanto lembram
a postura de Brás Cubas, nas suas Memórias Póstumas,
em muito se afastam da atitude sempre tão contida e conciliadora
do conselheiro Aires. O narrador chega a descrever Aires de uma forma um
tanto quanto desdenhosa, ao se referir a suas posições sempre
dúbias:
“Aires não pensava nada, mas percebeu que os outros pensavam alguma
coisa, e fez um gesto de dois sexos. Como insistissem, não escolheu
nenhuma das duas opiniões, achou outra, média, que contentou
a ambos os lados, coisa rara em opiniões médias. Sabes que
o destino delas é serem desdenhadas. Mas este Aires, — José
da Costa Marcondes Aires, — tinha que nas controvérsias uma opinião
dúbia ou média pode trazer a oportunidade de uma pílula,
e compunha as suas de tal jeito, que o enfermo, se não sarava, não
morria, e é o mais que fazem pílulas.”
O conselheiro Aires é retratado como um homem que sempre concorda
com todas as opiniões alheias, mesmo que sejam contraditórias,
o que assume em conversa com Flora. Lembra, assim, outro conselheiro famoso
da literatura luso-brasileira, o Acácio, do romance O Primo Basílio,
de Eça de Queirós. Ambos se comportam de maneira artificial
e estudada. Procuram passar a imagem da perfeita correção
e querem agradar a todo custo, fazendo com que os seus interlocutores ouçam
sempre o que querem e o que pensam.
Se Eça de Queirós descreve seu conselheiro Acácio
como uma figura subserviente e empostada, o narrador de Esaú
e Jacó esforça-se por desculpar a postura excessivamente
diplomática de Aires. Logo após mostrar que o conselheiro
tinha sempre “nas controvérsias uma opinião dúbia
ou média”, o narrador de Esaú e Jacó, prevendo o desdém
do leitor, pede que esse “não lhe queira mal por isso” e recomenda
ainda que “não cuide que não era sincero, era-o”. E
complementa: “tinha o coração disposto a aceitar tudo, não
por inclinação à harmonia, senão por tédio
à controvérsia.”
Em muitos momentos o narrador se identifica plenamente com o hipotético
autor do livro:
“Esse Aires que aí aparece conserva ainda agora algumas das virtudes
daquele tempo, e quase nenhum vício. Não atribuas tal estado
a qualquer propósito. Nem creias que vai nisto um pouco de homenagem
à modéstia da pessoa. Não, senhor, é verdade
pura e natural efeito.”
Em outras passagens, o narrador comunga do espírito comedido de
Aires: “Não exagero; também não quero mal a esta
senhora.” Se levarmos em conta que Aires tivera uma “queda” por D.
Natividade, a quem a frase se aplica, a correspondência entre narrador
e pseudo-autor fica ainda mais evidente.
O crítico Ivan Teixeira, no belo livro Apresentação
de Machado de Assis, resume bem a ambigüidade narrativa de Esaú
e Jacó: “A invenção do pseudo-autor Aires (…) acabou
gerando uma nova dimensão de foco narrativo: nem primeira nem terceira
pessoa. mas uma coisa diferente, em que um autor imaginário trata-se
a si mesmo como um ele, uma terceira pessoa, a cuja visão de mundo
submete, no entanto, toda a outra matéria narrada no romance.”
O DIÁLOGO
COM O LEITOR
Assim como em Memórias Póstumas de Brás Cubas,
o narrador de Esaú e Jacó trava um diálogo
tenso e constante com o leitor da obra. Esse “leitor incluso” na própria
narrativa é apresentado em geral como uma mulher – é bom
lembrar que as mulheres formavam a maioria do público leitor de
romances na época – que lê de modo impaciente e fútil.
O capítulo XXVII - De uma reflexão intempestiva é
todo dedicado a esse diálogo. O narrador flagra a reflexão
de um leitora hipotética sobre o que escrevera no capítulo
anterior: “Mas se duas velhas gravuras os levam a murro e sangue, contentar-se-ão
eles com a sua esposa? Não quererão a mesma e única
mulher?” Ao responder, o narrador imagina as restrições da
leitora vulgar, impregnada do romantismo mais banal, à sua obra:
“O que a senhora deseja, amiga minha, é chegar já ao capítulo
do amor ou dos amores, que é o seu interesse particular nos livros.
Daí a habilidade da pergunta, como se dissesse: ‘Olhe que o senhor
ainda nos não mostrou a dama ou damas que têm de ser amadas
ou pleiteadas por estes dois jovens inimigos. Já estou cansada de
saber que os rapazes não se dão ou se dão mal; é
a segunda ou terceira vez que assisto às blandícias da mãe
ou aos seus ralhos amigos. Vamos depressa ao amor, às duas, se não
é uma só a pessoa...’”
Francamente, eu não gosto de gente que venha adivinhando e compondo
um livro que está sendo escrito com método. A insistência
da leitora em falar de uma só mulher chega a ser impertinente. Suponha
que eles deveras gostem de uma só pessoa; não parecerá
que eu conto o que a leitora me lembrou, quando a verdade é que
eu apenas escrevo o que sucedeu e pode ser confirmado por dezenas de testemunhas?
Não, senhora minha, não pus a pena na mão, à
espreita do que me viessem sugerindo. Se quer compor o livro, aqui tem
a pena, aqui tem o papel, aqui tem um admirador; mas, se quer ler somente,
deixe-se estar quieta, vá de linha em linha; dou-lhe que boceje
entre dois capítulos, mas espere o resto, tenha confiança
no relator destas aventuras.”
A atitude do narrador não é só digressiva – afastando-se
por uns instantes da linha narrativa básica – mas também
metalingüística, pois através da interrupção
da leitora, acaba por comentar seu método compositivo. Mas a “leitora”
de fato antecipou um aspecto importante da narrativa que ainda estava por
se desenrolar, o demonstra que não era tão fútil assim.
O narrador irrita-se com a “reflexão intempestiva” da leitora, mas
essa digressão é usada com maestria por Machado de Assis
para já se desculpar pelo lance melodramático que irá
se seguir: Pedro e Paulo ficarão realmente apaixonados pela mesma
mulher. Basta lembrar o romance romântico Os Irmãos Corsos
(1841), de Alexandre Dumas, para verificar que não se trata de entrecho
muito original.
A PROCLAMAÇÃO
DA REPÚBLICA: OS BESTIALIZADOS
Em seu ensaio Os Bestializados - O Rio de Janeiro e a república
que não foi, o historiador José Murilo de Carvalho remete
a uma afirmação de Aristides Lobo (1838-1896), um dos chefes
republicanos do levante de 15 de novembro de 1889, que lamentava
o fato de a população do Rio de Janeiro ter assistido à
Proclamação da República "bestializada", ou seja,
sem nada entender, colocada à margem do movimento.
Em Esaú
e Jacó, Machado de Assis revela uma fina percepção
do fenômeno, na época de seu desenrolar. No capítulo
LX – Manhã de 15, narra o passeio de Aires por uma cidade
convulsa e atordoada, em que ninguém sabe ao certo o que estava
acontecendo:
“Notou que a pouca gente que havia ali não estava sentada, como
de costume, olhando à toa, lendo gazetas ou cochilando a vigília
de uma noite sem cama. Estava de pé, falando entre si, e a outra
que entrava ia pegando na conversação sem conhecer os interlocutores;
assim lhe pareceu, ao menos. Ouviu umas palavras soltas, Deodoro, batalhões,
campo, ministério, etc. (…) Quando Aires saiu do Passeio Público,
suspeitava alguma coisa, e seguiu até o largo da Carioca. Poucas
palavras e sumidas, gente parada, caras espantadas, vultos que arrepiavam
caminho, mas nenhuma notícia clara nem completa. Na rua do Ouvidor,
soube que os militares tinham feito uma revolução, ouviu
descrições da marcha e das pessoas, e notícias desencontradas.”
Apesar de “suspeitar alguma coisa”, depois de ouvir relatos exagerados
e desencontrados do cocheiro do tílburi que o levou para a casa
e de seu criado José, Aires “não acreditou na mudança
de regime (…). Também bestializado, como o resto da população,
menospreza a situação:
“Reduziu tudo a um movimento que ia acabar com a simples mudança
de pessoal.
— Temos gabinete novo, disse consigo.”
Almoçou tranqüilo, lendo Xenofonte: “Considerava eu um dia
quantas repúblicas têm sido derribadas por cidadãos
que desejam outra espécie de governo, e quantas monarquias e oligarquias
são destruídas pela sublevação dos povos; e
de quantos sobem ao poder, uns são depressa derribados, outros,
se duram, são admirados por hábeis e felizes...”
Segue-se um dos momentos mais curiosos de toda a obra de Machado de Assis,
a cena da “tabuleta”. O almoço de Aires é interrompido por
Custódio, dono da confeitaria em frente à sua casa. Quer
consultá-lo sobre a tabuleta nova que mandara pintar para seu estabelecimento,
a “Confeitaria do Império”. É Custódio que informa
Aires sobre a Proclamação da República. Teme que sua
confeitaria seja apedrejada. Aires sugere mudar o nome para “Confeitaria
da República”, mas o confeiteiro adverte para o fato de que a situação
pode mudar. Aires sugere “Confeitaria do Governo”, mas Custódio
lembra que todo governo tem oposição… E assim sucedem-se
as objeções do confeiteiro, preocupado em agradar a todos,
até que o conselheiro:
“Disse-lhe então que o melhor seria pagar a despesa feita e não
pôr nada, a não ser que preferisse o seu próprio nome:
“Confeitaria do Custódio”. Muita gente certamente lhe não
conhecia a casa por outra designação. Um nome, o próprio
nome do dono, não tinha significação política
ou figuração histórica, ódio nem amor, nada
que chamasse a atenção dos dois regimes, e conseguintemente
que pusesse em perigo os seus pastéis de Santa Clara, menos ainda
a vida do proprietário e dos empregados. Por que é que não
adotava esse alvitre? Gastava alguma coisa com a troca de uma palavra por
outra, Custódio em vez de Império, mas as revoluções
trazem sempre despesas.”
Essa cena comprova o que Aires iria escrever no seu Memorial:
“Não há alegria pública que valha uma boa alegria
particular.” Nos dois últimos romances de Machado de Assis
essa preocupação com as relações entre o público
e o privado aparecem ligadas a fatos históricos importantes do momento
narrado.
No Memorial de Aires, cuja narrativa abrange os anos de 1888 e 1889,
Machado de Assis, mestiço e discretamente abolicionista, registra
com simpatia, sempre através das palavras atenuadas de Aires, o
momento em que a Abolição da Escravatura é concretizada.
Já em Esaú e Jacó, a emancipação
dos escravos é o único tema capaz de unir as opiniões
dos dois irmãos. Mesmo que por razões diferentes, em 1888,
ambos a comemoram.


![]() |
|
![]() |