O NASCIMENTO DO ROMANCE
A publicação
de romances em folhetins - os capítulos aparecendo a cada dia nos
jornais - já era comum no Brasil desde a década de 1830.
A maior parte destes folhetins era composta por traduções
de romances de origem inglesa, como as histórias medievais de Walter
Scott, ou francesa, como as aventuras dos Três Mosqueteiros, de Alexandre
Dumas. Emocionados, os brasileiros acompanhavam as distantes aventuras
de um Ivanhoé ou de um D’Artagnan, transportando-se, em espírito,
para os campos e reinos da Europa.
Embora
fizessem sucesso junto ao público, os primeiros romances brasileiros,
publicados em folhetim, não deixavam de ser considerados, pelos
literatos “sérios”, como “uma leitura agradável, diríamos
quase um alimento de fácil digestão, proporcionado a estômagos
fracos.” O romance, esse gênero literário novo e “fácil”,
que foi introduzido na literatura brasileira por autores como Joaquim Manuel
de Macedo e Teixeira e Sousa, ganharia status de literatura "séria"
com a obra de José de Alencar.
Os primeiros romances
brasileiros
Na
década de 1840 começam a aparecer alguns folhetins de autores
nacionais, ambientados no Brasil. Teixeira e Sousa (1812-1861), considerado
por muitos o nosso primeiro romancista, estréia em 1843 com O
Filho do Pescador. No ano seguinte, o jovem estudante de medicina,
Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882), surge com A Moreninha, o primeiro
romance nacional “apreciável pela coerência e pela execução”.
Em meio à corrente açucarada dos nossos primeiros folhetinistas
surge, já em 1852/53, a obra excêntrica de um jornalista carioca
de vinte e um anos chamado Manuel Antônio de Almeida (1831-1861).
As suas Memórias de um Sargento de Milícias retratam
de forma irônica a vida do Rio de Janeiro “no tempo do rei” Dom João
VI e apresentam um contraponto cômico à seriedade por vezes
excessiva e à inverossimilhança dos romances do Dr.
Macedinho.
A descrição
do cenário nacional
O público
interessava-se, portanto, cada vez mais por um romance de aventuras românticas
que apresentasse o cenário brasileiro. O grande sucesso de público
de O Guarani (1857), de José de Alencar, em que as aventuras de
Peri e sua amada Cecília se desenrolam em meio à exuberante
natureza fluminense, estimula os escritores a se voltarem para a apresentação
da ambientação tipicamente nacional em suas obras.
Na
década de 70 essa tendência nacionalista haveria de se consolidar,
com o surgimento das obras de Franklin Távora (1842-1888), autor
de O Cabeleira (1876) e o Visconde de Taunay (1843-1899), autor de
Inocência (1872). É nesse cenário literário
que aparece, em 1875, um dos maiores sucessos de público do período:
A Escrava Isaura, que explora uma das questões mais polêmicas
da sociedade brasileira da época, a escravidão.
O ENREDO
A história
se passa nos “primeiros anos do reinado de D. Pedro II”, inicialmente em
uma fazenda em Campos dos Goitacazes (RJ). Isaura, escrava branca e bem-educada,
é assediada pelo seu senhor, Leôncio, recém-casado
com Malvina. Isaura se recusa a ceder aos apelos de Leôncio, como
já fizera, no passado, sua mãe, que, por ter repelido o pai
de Leôncio, fora submetida a um tratamento tão cruel que,
em pouco tempo, morrera.
Para
forçá-la a ceder, Leôncio manda Isaura para a senzala,
trabalhar com as outras escravas. Sempre resignada, suporta passivamente
o seu destino, porém, não cede a Leôncio, afirmando
que ele, como proprietário, era senhor de seu corpo, mas não
de seu coração: “ - Não, por certo, meu senhor; o
coração é livre; ninguém pode escravizá-lo,
nem o próprio dono.” Leôncio, enfurecido, ameaça colocá-la
no tronco.
No
entanto, seu pai, ex-feitor da fazendo, consegue tirá-la de lá
e foge com ela para Recife (PE). Em Recife, Isaura usa o nome de Elvira
e vive reclusa numa pequena casa com seu pai. Então, conhece Álvaro,
por quem se apaixona e é correspondida. Vai a um baile com ele,
onde é desmascarada e reconhecida. Álvaro, ainda que surpreso,
não se importa com o fato de ela ser uma escrava e resolve impedir
que Leôncio a leve de volta, inclusive tentando comprá-la.
Mas não consegue convencer o vilão, e este leva Isaura de
volta ao cativeiro na fazenda.
Leôncio
está praticamente falido e, com o objetivo de conseguir um empréstimo
do pai de Malvina, consegue se reconciliar com a mulher, afirmando que
Isaura é quem o assediava. Então, para punir Isaura, Leôncio
manda que ela se case com Belchior, jardineiro da fazenda. Entretanto,
Álvaro descobre a falência de Leôncio e compra a dívida
dos seus credores, tornando-se proprietário de todos os seus bens,
inclusive de seus escravos. No dia do casamento de Isaura, antes que se
celebrasse a cerimônia, Álvaro aparece e reclama seus direitos
a Leôncio. Vendo-se derrotado e na miséria, Leôncio
suicida-se. Tudo termina, portanto, com a punição dos culpados
e o triunfo dos justos.
Como
bem o sintetizou Carlos Alberto Vecchi:
“A
estrutura narrativa de A Escrava Isaura segue o modelo folhetinesco
das histórias românticas: para atingir seu ideal e obter o
reconhecimento de todos, o herói tem que realizar uma jornada perigosa,
onde a própria vida é colocada em risco. O Amor, epicentro
onde se debatem o Bem e o Mal, torna-se a força motriz que conduz
ao restabelecimento do equilíbrio e da felicidade a todos que, em
momento algum, se deixaram intimidar pelos desmandos de Leôncio.
O Mal extirpado (o suicídio de Leôncio) cede lugar ao Bem.
E aqueles que nortearam suas ações pelas virtudes maiores
é que estão aptos a receber o prêmio daí decorrente.”
OS PERSONAGENS
A obra
apresenta a tríade comum aos romances populares românticos:
vilão, heroína e herói. E, graças à
ausência de profundidade com que são construídos, os
personagens do romance são planos, estáticos e superficiais.
Isaura,
a heroína escrava, é branca, pura, virginal, possui um caráter
nobre e demonstra “conhecer o seu lugar”: do princípio ao fim, suporta
conformada a perseguição de Leôncio, as propostas de
Henrique, as desconfianças de Malvina, sem jamais se revoltar. Permanece
emocionalmente escrava, mesmo tendo sido educada como uma dama da sociedade.
Tem escrúpulos de passar por branca livre, acha-se indigna do amor
de Álvaro e termina como a própria imagem da “virtude recompensada”.
Vejamos
como Guimarães descreve sua heroína:
“A
tez é como o marfim do teclado, alva que não deslumbra, embaçada
por uma nuança delicada, que não sabereis dizer se é
leve palidez ou cor-de-rosa desmaiada. (…) Na fronte calma e lisa como
o mármore polido, a luz do ocaso esbatia um róseo e suave
reflexo; di-la-íeis misteriosa lâmpada de alabastro guardando
no seio diáfano o fogo celeste da inspiração.”
Leôncio
é o vilão leviano, devasso e insensível que, de “criança
incorrigível e insubordinada” e adolescente que sangra a carteira
do pai com suas aventuras, acaba por tornar-se um homem cruel e inescrupuloso,
casando-se com Malvina, linda, ingênua e rica, por ser “um meio mais
suave e natural de adquirir fortuna”. Persegue Isaura e se recusa a cumprir
a vontade de sua mãe, já falecida, que queria dar a ela a
liberdade e alguma renda para viver com dignidade.
Álvaro
é um rico herdeiro, cavalheiro nobre e de caráter impecável,
que “tinha ódio a todos os privilégios e distinções
sociais, e é escusado dizer que era liberal, republicano e quase
socialista”; um jovem de idéias igualitárias, idealista e
corajoso para lutar contra os valores da sociedade a que pertence. Sua
conduta moral é assim descrita pelo autor:
“Original
e excêntrico como um rico lorde inglês, professava em seus
costumes a pureza e severidade de um quacker. Todavia, como homem de imaginação
viva e coração impressionaável, não deixava
de amar os prazeres, o luxo, a elegância, e sobretudo as mulheres,
mas com certo platonismo delicado, certa pureza ideal, próprios
das almas elevadas e dos corações bem formados.”
Apaixonado
por Isaura, o grande obstáculo que Álvaro precisa vencer
é o fato de ser Isaura propriedade legítima de Leôncio.
Para isso, vai à corte, descobre a falência de Leôncio,
adquire seus bens e desmascara o vilão. Liberta Isaura e casa-se
com ela, desafiando, assim, os preconceitos da sociedade escravocrata.
Nos
demais personagens o processo de construção é o mesmo.
Miguel, pai de Isaura, foge do conceito tradicional do mau feitor. Quando
feitor da fazenda de Leôncio, tratara bem aos escravos e amparara
Juliana, mãe de Isaura, nas suas desditas com o pai de Leôncio.
Pai extremoso, deseja libertar a filha do jugo da escravidão e não
mede esforços para isso.
Martinho
é o protótipo do ganancioso: cabeça grande, cara larga,
feições grosseiras e “no fundo de seus olhos pardos e pequeninos,…
reluz constantemente um raio de velhacaria”. Por querer ganhar muito
dinheiro entregando Isaura ao seu senhor, acaba por não ganhar nada.
Já Belchior é o símbolo da estupidez submissa e também
sua descrição física se presta a demonstrar sua conduta:
feio, cabeludo, atarracado e corcunda. O crítico Manuel Cavalcanti
Proença aponta “o parentesco entre o disforme e grotesco (de gruta)
Belchior, e o Quasímodo de O Corcunda de Notre Dame, de Víctor
Hugo, romance de extraordinária voga, ainda não de todo perdida,
no Brasil.”
O dr.
Geraldo é um advogado conceituado, que serve como fiel da balança
para Álvaro, já que procura equilibrar os arroubos do amigo,
mostrando-lhe a realidade dos fatos. Quando Álvaro, revoltado com
a condição de Isaura e indignado com os horrores da escravidão,
dispõe-se a unir-se a ela, mesmo sabendo que escandalizaria a sociedade,
Geraldo retruca lucidamente que a fortuna de Álvaro lhe dá
independência para “satisfazer os teus sonhos filantrópicos
e os caprichos de
tua imaginação
romanesca”. O que não é, na verdade, característica
restrita apenas à sociedade escravocrata do século XIX.
Concessão ao
preconceito?
Este
romance já foi considerado, com bastante exagero, uma espécie
de A Cabana do Pai Tomás (1851) nacional. Porém, Bernardo
Guimarães, ao contrário da romancista americana Harriet Beecher
Stowe, detém-se muito pouco na descrição dos sofrimentos
provocados pelo regime escravocrata. Ele coloca, na boca de alguns personagens,
como Álvaro e seus amigos, estudantes no Recife, algumas frases
abolicionistas, mas parece tomar bastante cuidado em não provocar
a fúria dos seus leitores conservadores. Está mais preocupado
em contar as perseguições do senhor cruel à escrava
virtuosa e, assim, conquistar a simpatia do leitor.
Bernardo
Guimarães faz questão de ressaltar exaustivamente a beleza
branca e pura de Isaura, que não denunciava a sua condição
de escrava porque não portava nenhum traço africano, era
educada e nada havia nela que “denunciasse a abjeção do escravo”.
O que parece uma escolha preconceituosa e contraditória – contar
as agruras da escravidão criando uma escrava branca – talvez seja
melhor compreeendido se se levar em conta que a maior parte do público
que consumia romances na época era composto por mulheres da sociedade,
que apreciavam as histórias de amor.
Somem-se
a isso o modelo de beleza feminino de então, caracterizado pela
pele nívea e maçãs rosadas do rosto e, principalmente,
o objetivo do autor de conquistar a solidariedade do leitor pela escrava,
mostrando a que ponto extremo poderia chegar o regime escravocrata: “fisicamente,
Isaura não é diferente das damas da sociedade, mas, por ser
escrava, é obrigada a viver como os de sua classe, como objeto útil
nas mãos de seu senhor”, conforme afirma a crítica Maria
Nazareth Soares Fonseca.
O autor
claramente conseguiu o que queria. A sociedade brasileira do século
XIX, que tanto se apiedou das desventuras de Isaura, aceitou-a porque ela
era branca e educada. O autor pôde, assim, demonstrar, através
do seu sofrimento, o quanto “é vã e ridícula toda
a distinção que provém do nascimento e da riqueza”.
E é claro, a cor de Isaura serve, como afirma o crítico Antônio
Cândido, “para facilitar a ação de Álvaro, compreensivelmente
apaixonado e decidido a desposá-la, como fez.”
Se
houve influência, portanto, do romance A cabana do Pai Tomás,
talvez tenha sido apenas no que o crítico Alfredo Bosi aponta como
referência: a cena da fuga de Campos para Recife, “talvez sugerida
pela fuga de Elisa através dos gelos flutuantes de Ohio para a liberdade
no Norte e por fim no Canadá”. Entretanto, o fato é que,
como aponta o crítico, só depois do lançamento de
A cabana do Pai Tomás “a literatura brasileira começou a
ser povoada de feitores cruéis e de escravos virtuosos”.
A LINGUAGEM
O tratamento
exageradamente romântico que o autor aplica neste livro faz com que
ele tenha um caráter mais de lenda do que de realidade, ao contrário
de seus outros romances, como O Ermitão de Muquém (1864),
O Seminarista (1872) e O Garimpeiro (1872), em que a descrição
regionalista do ambiente físico e social proporciona mais verossimilhança
à trama.
Em
A Escrava Isaura, o excesso de imaginação se traduz em
“idealização descabida”, como afirma Antonio Candido, que
se concretiza no plano da linguagem em descrições repetitivas
e mecânicas dos personagens, com abuso de adjetivos redundantes.
Observe-se
a descrição de Isaura quando senta-se ao piano no salão
de baile no Recife:
“A
fisionomia, cuja expressão habitual era toda modéstia, ingenuidade
e candura, animou-se de luz insólita; o busto admiravelmente cinzelado
ergueu-se altaneiro e majestoso; os olhos extáticos alçavam-se
cheios de esplendor e serenidade; os seios, que até ali apenas arfavam
como as ondas de um lago em tranqüila noite de luar, começaram
de ofegar, túrgidos e agitados, como oceano encapelado; seu colo
distendeu-se alvo e esbelto como o do cisne, que se apresta a desprender
os divinais gorgeios. Era o sopro da inspiração artística,
que, roçando-lhe pela fronte, a transformava em sacerdotisa do belo,
em intérprete inspirada das harmonias do céu.”
O AMOR E A DONZELA
INEXPUGNÁVEL
“Os
motivos que compõem romance”, segundo Cavalcanti Proença,
“são filiados nos velhos e perenes topos” – ou temas – “da literatura
popular. O amor à primeira vista é um deles. Ver e amar é
um verbo só. E isso porque a narrativa não é a história
de um amor, mas dos sofrimentos do amor. (…) Para isso se entretecem os
conflitos de escrava que não tem direito de amar, os do homem casado
que não deve trair a esposa. (Amor verdadeiro só o primeiro.)”
Entre
esses temas, há um que remonta à literatura medieval e que
domina a narrativa como um todo, a partir da descrição de
Isaura como pura e virtuosa, lutando contra a luxúria do seu senhor.
É o da donzela inexpugnável, que defende sua pureza com todas
as forças de que dispõe, preferindo arriscar-se à
morte na fuga a se entregar sexualmente.
Entre
os precursores da literatura folhetinesca está o romancista e tipógrafo
inglês Samuel Richardson (1689-1761). A sua novela Pamela, ou
a Virtude Recompensada, publicada em 1741, certamente é uma
das fontes de inspiração mais contundentes para a composição
do romance de Bernardo Guimarães. Nessa obra, Richardson narra as
desventuras de Pamela Andrews, filha de camponeses que é educada
por uma senhora nobre que, ao morrer, a entrega aos cuidados de seu filho,
o Conde de Belfart. Esse jovem inescrupuloso atenta contra a virtude de
Pamela, assediando-lhe com ameaças vis e acaba por entregar-lhe
a uma vulgar alcoviteira. Mas Pamela, como Isaura, consegue defender-se,
mantendo intacta a sua honra. Acaba por comover com suas lágrimas
abundantes o Conde de Belfart que, arrependido, termina se casando com
a heroína.
Bernardo
Guimarães acrescenta à trama romanesca inventada por Richardson
a figura do cavalheiro salvador Álvaro e a temática bem brasileira
da escravidão.
Também
Castro Alves, o maior dos nossos escritores abolicionistas, refere-se à
defesa da virtude das escravas, em poemas como Súplica, do
livro Os Escravos (1883):


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