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Rubem Braga tinha 18 anos e já se impusera como cronista em Belo
Horizonte. Fazia no jornal "Estado de Minas" uma coluna de leitura obrigatória.
Sempre andejo, lá um dia viajou, deixando de escrever. Mas o jornal
resolveu engambelar os leitores, publicando uma crônica de outro,
com assinatura dele. Braga leu e telegrafou ao diretor Afonso Arinos: "Não
useis meu santo nome em vão".
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A crônica não é um gênero maior, já escreveu
Antonio Candido. Graças a Deus, completa o crítico, porque
sendo assim ela fica perto de nós. (...) Na sua despretensão,
humaniza; e esta humanização lhe permite, como compensação
sorrateira, recuperar com a outra mão uma certa profundidade de
significado e um certo acabamento de forma, que de repente podem fazer
dela uma inesperada embora discreta candidata à perfeição.
Fruto do jornal, onde aparece entre notícias efêmeras, a crônica
é um gênero literário que se caracteriza por estar
perto do dia-a-dia, seja nos temas, ligados à vida cotidiana, seja
na linguagem despojada e coloquial do jornalismo. Mais do que isso, surge
inesperadamente, como um instante de alívio para o leitor fatigado
com a frieza da objetividade jornalística.
De extensão limitada, essa pausa se caracteriza exatamente por ir
contra a tendências fundamentais do meio em que aparece, o jornal
diário. Se a notícia deve ser sempre objetiva e impessoal,
a crônica é subjetiva e pessoal. Se a linguagem jornalística
deve ser precisa e enxuta, a crônica é impressionista e lírica.
Se o jornalista deve ser metódico e claro, o cronista, segundo Décio
de Almeida Prado, se tem em mente algum fim, algum objetivo -- o pressuposto
é que não possua nenhum -- deve conduzir-nos a ele sem que
percebamos, movido, aparentemente, pelo método menos metódico
que existe: o do assunto puxa assunto.
Se o jornal é frio, na crônica estabelece-se uma atmosfera
de intimidade entre o leitor e o cronista, que refere experiências
pessoais ou expende juízos originais acerca dos fatos versados.
A crônica não é, portanto, apenas filha do jornal.
Trata-se do antídoto que o próprio jornal produz. Só
nele pode sobreviver, porque se nutre exatamente do caráter antiliterário
do jornalismo diário.
A Importância
de Rubem Braga
Em 1989, cerca de um ano antes de sua morte, Rubem Braga escreveu, em sua
coluna da Revista Nacional, uma das mais ácidas descrições
do ofício a que dedicou toda a vida, o de cronista: Respondo que
a crônica não é literatura, e sim subproduto da literatura,
e que a crônica está fora do propósito do jornal.
A crônica é subliteratura que o cronista usa para desabafar
perante os leitores. O cronista é um desajustado emocional que desabafa
com os leitores, sem dar a eles oportunidade para que rebatam qualquer
afirmativa publicada. A única informação que a crônica
transmite é a de que o respectivo autor sofre de neurose profunda
e precisa desoprimir-se. Tal informação, de cunho puramente
pessoal, não interessa ao público, e portanto deve ser suprimida.
O que a auto-ironia corrosiva do "velho Braga" não deixa transparecer
é a elevação de status que a sua própria obra
propiciou à crônica no Brasil durante os últimos 60
anos. De subliteratura, passou a ser considerado um gênero literário
respeitável e digno de estudo. E já era tempo. Afinal, a
crônica vem sendo praticada assiduamente, no Brasil, por muitos dos
nossos maiores escritores, desde que os jornais passaram a ser centros
importantes da vida cultural e intelectual no país.
Em 1854, o então jornalista José de Alencar começa
a escrever uma seção diária no Correio Mercantil,
intitulada Ao Correr da Pena, em que comenta os mais variados assuntos
da vida do Rio de Janeiro e do país. Esses textos leves de temática
cotidiana, com pitadas de lirismo e, muitas vezes, humor, podem ser considerados
os precursores da crônica moderna. Seguindo esta mesma linha, Machado
de Assis contribuiu durante toda a sua carreira com crônicas para
diversos jornais.A produção do Machado cronista se inicia
já em 1859 e se estende até 1904, com raras interrupções.
Sua produção mais madura e interessante foi publicada na
colunas do jornal Gazeta de Notícias, em que contribui
de 1881 a 1904: Balas de Estalo (1883-1885), Bons Dias! (1888-1889)
e principalmente na célebre coluna A Semana (1892-1897).
No final do século XIX vários escritores se destacaram como
cronistas. De fato era na produção de crônicas, muitas
vezes diárias, que ficcionistas como Artur Azevedo, Coelho Neto
e Medeiros de Albuquerque, ou poetas como Olavo Bilac - seguramente um
dos nossos mais férteis cronistas, chegando a escrever, durante
anos, mais de uma crônica diária para diferentes jornais -
encontraram seu ganha-pão através da literatura.
No início do século, destacam-se as crônicas do jornalista
João do Rio, hábil repórter, que descreviam com vivacidade
as ruas agitadas do Rio de Janeiro na belle époque. Na São
Paulo do início do Modernismo, Menotti del Picchia e Antônio
de Alcântara Machado valeram-se de suas produções de
cronistas para divulgar os ideais da Semana de Arte Moderna.
Rubem Braga, portanto, não inventou a crônica entre nós.
Quando, em 1936, surge seu primeiro livro de crônicas, o gênero
já tinha uma longa e fértil história nesse país.
No entanto, na obra de todos os escritores citados acima, de José
de Alencar a Antônio de Alcântara Machado, a produção
de crônicas figura sempre como uma parcela de menor valor, como uma
produção efêmera e secundária. Olavo Bilac,
por exemplo, escreveu muito mais crônicas do que poemas em sua vida,
mas é sempre lembrado como um poeta que se dedicou a um "gênero
menor" apenas para se sustentar.
Já Rubem Braga, como bem o colocou José Paulo Paes, é
um caso único de autor que entrou para nossa história literária
exclusivamente pela sua obra de cronista. Com uma visão entre lírica
e irônica da vida, e um estilo admiravelmente dúctil e pessoal,
logrou ele, como ninguém, dar nobreza literária ao gênero
.
Conferiu ele tanta nobreza ao gênero que este passou a ser tratado
em condições quase iguais ao seu "irmão mais elevado",
o conto. E foi além. Como o colocou Jorge de Sá, diluindo
as fronteiras entre os gêneros crônica, conto e poema em prosa,
Rubem Braga consagrou a crônica como um gênero literário
ficcional que muitas vezes se confunde com o conto, diferenciando-se apenas
na densidade do tratamento temático e na construção
de personagens: se o conto se concentra na complexidade das relações
e em jogos de linguagem mais elaborados, a crônica mantém
sua aparência de conversa fiada estabelecida entre o cronista (ele
mesmo narrador) e o leitor virtual.
A inclusão das -- segundo seu próprio autor, subliterárias
-- crônicas de Braga em um coleção como a de Melhores
Contos, da Editora Global, que inclui autores como Machado de
Assis, Clarice Lispector, Eça de Queirós e Mário de
Andrade, reforça essa idéia. As crônicas de Rubem Braga
selecionadas pelo Prof. Davi Arrigucci Jr. transformaram-se, assim, num
passe de mágica e de imprecisão terminológica, nos
Melhores Contos de Rubem Braga. Mas não deixam de ser crônicas
e nem por isso deixam de ser literatura da mais alta qualidade.
Os Melhores Contos De Rubem Braga (1985)
Este volume é uma antologia de crônicas de Rubem Braga selecionadas pelo professor Davi Arrigucci Jr.. Reúne 39 crônicas na seguinte ordem:
Síntese dos Enredos
1. Tuim criado no
dedo - Menino, durante férias em cidade do interior, cria um
tuim, o menor dos periquitos brasileiros, "no dedo", ou seja, o ensina
a obedecer seus chamados e deixa-o viver livre, fora da gaiola. Quando
a família retorna a São Paulo, o tuim foge e é aprisionado
por outra família. Recuperando-o, o menino corta-lhe as asas. Mas,
no instante seguinte, o tuim é devorado por um gato.
2. Diário
de um subversivo - No "remoto ano de 1936", durante a perseguição
getulista aos comunistas após a Intentona de 35, o narrador apresenta
sua fuga da repressão, em forma de diário, do dia 15 de fevereiro
ao dia 1o de março. Adotando pseudônimo, finge-se alienado
em conversas com integralistas que vivem na pensão onde mora. Procurado
pela polícia na pensão, é auxiliado por velho conhecido,
Edgar, que o abriga em sua casa. Ao poucos vai se envolvendo com a mulher
de Edgar, Alice. Afirma que se "tivesse qualquer coisa com essa mulher,
seria o último dos canalhas." Termina a crônica afirmando
laconicamente: "Sou."
3. A moça
rica - Relincho de cavalo desperta em pescador humilde a memória
de uma moça rica que viera do Rio. Usando calças, caçando
e pescando, a moça de início o assusta, mas, em seguida,
ao cantar, o encanta. Dois anos mais velha do que ele, pára um dia
na praia solitária para conversar com o rapaz, que, assustado e
ingênuo, esquiva-se de suas tentativas de aproximação
e deixa escapar a chance de se envolver com a moça bonita e rica.
4. O jovem casal
- Casal jovem espera o bonde. Lutam contra a miséria vivendo
em uma pensão barata e suja. Vivem na feiúra de uma "vida
estreita". Não podem pegar o ônibus por ser muito caro, sofrem
de dores de cabeça e dentes, mas tratam-se com carinho e amor. Pára,
à sua frente, um automóvel de luxo com um casal. A mulher
diz, no momento em que o carro partia, que iria comprar um anel por quinze
contos. O rapaz ouve isto como se fosse um soco em seu estômago mal
alimentado. Com esse dinheiro, poderia pagar anos de pensão e aliviar
o sofrimento de sua amada. Chega o bonde.
5. Negócio
de menino - Diálogo entre um menino e o narrador, vendedor de
passarinhos. O garoto vai intercalando perguntas sobre os pássaros
e pausas até pedir ao narrador um passarinho de presente e depois
sair correndo.
6. Coração
de mãe - Marina e Dorinha são irmãs e moram
com sua mãe, dona de pensão no bairro do Catete, no Rio de
Janeiro. Loiras, de olhos azuis, vivem cantando. Certa noite, as moças
chegam já de madrugada e "um pouco tontas". A mãe, dona Rosalina,
briga com as filhas. No dia seguinte, ouve Marina ao telefone referindo-se
a ela como "a velha" e as expulsa de casa. Na rua, o "cavalheirismo do
bairro" se manifesta e as moças recebem várias propostas
de ajuda dos "bondosos homens". Porém, são interrompidos
pela mãe, que manda as filhas de volta para casa. Conclusão
do narrador: não há nada no mundo como o coração
de mãe.
7. Marinheiro na
rua - De madrugada, na rua deserta, um "pequeno marinheiro" bate à
porta de um edifício às escuras, observado do alto e à
distância pelo narrador. O som da batida chega uma fração
de segundo após o gesto, o que desperta no narrador uma recordação
da infância e, depois, uma série de idéias, como a
suspeita de que talvez o marinheiro fosse seu filho ou ele mesmo e dentro
do prédio estivesse sua amada. A porta não abre e o marinheiro,
cansado de bater, segue pela calçada até o narrador o perder
de vista. O narrador olha, então, para a fachada do prédio
e todas as luzes se acendem. O edifício fica maior e começa
a se mover como um grande navio, partindo lentamente.
8. O homem da estação
- Numa aldeia, na França, o narrador procura hospedagem para
passar a noite. Ninguém lhe dá abrigo. Anda pelo campo e
um homem de bicicleta pára e lhe pergunta se precisa de alguma coisa.
Responde que não achou lugar para dormir e está indo para
outra aldeia. O homem indica ao narrador onde fica a estação
da estrada de ferro em que trabalha e informa que virá um trem em
duas horas. Quando chega na estação, o homem lhe preparou
uma cama e lhe oferece vinho. O narrador bebe "em silêncio à
saúde de um homem que não teme nem despreza outro homem.
9. Falamos de carambolas - Narrador conta uma conversa com uma amiga (?) em um bar. Falam de sorvetes e frutas até que ele pergunta o que o médico disse. Ela responde vagamente que era uma síndrome e não iria se enganar. O narrador afirma que é pessimismo dela. Ela nega, hesita, mas não pronuncia o nome da doença, para alívio do narrador. Mudam de assunto e, enquanto conversam, o narrador pensa que é insuportável saber que ela morreria. Ela critica o seu bigode e ele pergunta por que ela não toma conta dele. Ela "ri uma risada... clara, alegre, ... como o cristal..., que se parte tão fácil."
10. Era uma
noite de luar - O narrador conta sobre uma noite, na época da
repressão do Estado Novo, em que foi levar notícias à
Marina, mulher de Alberto, um militante comunista preso. Descreve as precauções
que tinha que tomar e a conversa com Marina, que está sem dinheiro,
solitária, triste e cansada de se esconder. Durante a conversa,
o narrador abre uma banda da janela para jogar o cigarro e comenta que
o luar está bonito. Ela se aproxima da janela e ele abre a outra
banda. Então ela fecha a janela com brutalidade, chama-o de estúpido,
pois "está sozinha desde a prisão do marido", manda-o embora,
atira-se na cama e começa a chorar.
11. Viúva
na praia - Narrador conta que viu a viúva na praia com o filho
e deitou-se na areia para contemplá-la. Conhecera vagamente o marido
dela no café da esquina, onde soube que ele ficara muito tempo doente
antes de morrer. Descreve a beleza da mulher e pensa que, se fosse ele
o marido, ficaria ressentido ao saber que, poucos dias depois da sua morte,
um estranho estaria olhando o corpo de sua mulher, mesmo que discretamente.
Mas ele é o outro homem, está vivo, e sente-se, por isso,
superior. Descreve a viúva depois de um mergulho e conclui que o
sol ama a viúva.
12. A navegação
da casa - O narrador é um senhor, brasileiro, que saiu do hotel
e está numa casa antiga, em Paris. É abril, início
da primavera. Seus amigos fazem uma festa. O narrador sente-se alegre e
diz que a casa parece uma velha fragata tripulada por bêbados. Quando
a festa termina, anda sozinho pela casa, imaginando os invernos difíceis
que os antigos moradores lá passaram. No dia seguinte está
muito frio. Os amigos chegam e ele acende todas as lareiras. As luzes são
apagadas e o narrador - diante do fogo - imagina que lá estão
também os fantasmas dos antigos amigos. Lembra de um sagüi
- presente para a sua noiva, que ele, por distração, deixara
morrer de frio em Belo Horizonte, assim como "matamos, por distração,
muitas ternuras". Por fim, pensa em meninos, "em um menino".
13. Aula
de inglês - Crítica ao famoso "método Berlitz",
de ensino de línguas através de perguntas e respostas. A
professora pergunta em inglês, ao aluno (o narrador), se determinado
objeto é um elefante. Após uma cuidadosa análise,
ele responde que não. Pergunta, então, se é um livro;
prontamente o narrador responde que não. Pergunta se é um
handkerchief (lenço), palavra que o aluno não conhece, mas
acha antipática e responde que não. À última
pergunta, se é um cinzeiro (ash-tray), o aluno responde que sim.
A reação eufórica da professora faz o narrador sair
satisfeito da sua primeira aula. Pensa em comprar um cachimbo inglês
e, se encontrasse o embaixador britânico, imagina "entabular uma
longa conversação", em que diria que o cachimbo não
é um "ash-tray".
14. Caçada
de paca - O narrador conta que uma conversa sobre paca o levou a abandonar
a rede, onde descansava, embaixo da mangueira e sair à noite para
caçar paca, acompanhado por Anti. Depois de muito andar na noite
escura, subindo e descendo morro, pensam que viram uma paca, atiram e matam
um cachorro. Discutem se havia paca mesmo, mas na verdade estavam
bêbados. Chegam de madrugada e as mulheres ainda riem deles. Para
o narrador, Deus fez o domingo, o brasileiro armou a rede e o Diabo inventou
a paca.
15. A partilha
- Dois irmãos se separam e o narrador transcreve o que um deles,
o mais velho, diz, enquanto fazem a partilha dos objetos da casa. Ele deseja
ficar com a rede, o retrato da mãe e, principalmente, o canivete
do irmão mais novo. Enquanto argumenta, as características
de cada um vão sendo descritas, do ponto de vista do mais velho,
que sabe pescar e lidar com o canivete, além de fazer os consertos
da casa. O mais novo ganha mais dinheiro, escreve cartas e tem namorada.
Através do monólogo, nota-se que o mais novo ameaça
o irmão com o canivete e este lhe dá o conselho de nunca
puxar canivete para outro homem, pois é arma de menino. É
melhor dar um tiro com garrucha. Diz que se o matasse naquele momento estaria
matando um inimigo, não seria como ele "que levantou a arma contra
um irmão". Pega o canivete, reclama que o irmão não
presta nem para limpá-lo, mas é bom para outras coisas e
despede-se.
16. Noite
de chuva - Homem está em casa em noite de temporal, após
um dia difícil. Antes de dormir, pensa que há muitos anos
adia consertar as coisas, dos dentes a um caso sentimental. Começa
a dormir quando Joaquina Maria, "negra velha" que lavava as suas roupas,
bate na porta e pede ajuda para tirar o corpo do neto dos escombros do
barraco, que fora derrubado pelo temporal. Nada está funcionando
na cidade. Deixa a velha na entrada da casa, tenta parar uns carros, bebe
uma bagaceira e conta a história num botequim , sentindo que era
ridículo o que fazia. Volta para casa pensando que de nada ia adiantar
se conseguisse telefonar, pois não conseguiria assistência
com aquela chuva. Encontra a velha chorando e diz secamente que arrumou
tudo "para amanhã de manhã". Ela vai embora, com um ar desamparado.
17. Os perseguidos - Durante a repressão do Estado Novo, o narrador, acompanhado de Moreira, que ficara um mês preso e fora torturado, chegam ao apartamento indicado. O narrador "tem pena e desgosto" de Moreira, que está sujo e mal vestido. Uma empregada de uniforme os atende, pede que entrem e se sentem. É uma sala luxuosa com uma janela imensa com vista para o mar, que surpreende o narrador: o mar dos ricos é mais amplo, puro e azul do que o mar dos pobres, visto lá embaixo. O narrador inspira o ar salgado e limpo e tem a impressão de que aquele ar não é dele e ele nem o merece, já que o ar dos pobres é quente e parado, com poeira e fumaça.
18. A mulher que ia navegar - Mulher é observada pelo narrador, enquanto se desenrola, numa roda de intelectuais, conversa sobre pintura. Além da mulher e do narrador, participam da roda o marido dela, “todo bovino”, um pintor, uma senhora, um físico e uma outra senhora desquitada. A mulher, junto à janela, está atenta às mudança de cor em seu braço, provocadas por um anúncio luminoso de um edifício em frente. Quando o marido refere-se a certo pintor com uma palavra vulgar, a mulher o olha com "menos zanga do que tédio" e o narrador sente que ela se preparava para enganá-lo, como "um belo barco prestes a se fazer ao mar". Ela procura e escolhe o físico para ser o “ piloto de longo, longo curso” com quem vai navegar.
19. Força de vontade - Narrador conhece comerciante em hotel em Foz do Iguaçu. Ele não tem vícios, é solteiro e mora em São Paulo, com os pais. Durante a conversa, o comerciante comenta que está realizando o último dos seus três ideais: visitar pelo menos um país estrangeiro. Outro ideal, já cumprido, era ter um diploma. Depois do jantar, o narrador cumprimenta o comerciante por ter realizado seu ideal “em duplicata”, afinal visitara dois países, Argentina e Paraguai. O comerciante afirma que provou a sua força de vontade e que, para isso, passara por muitas dificuldades. Mais tarde, o narrador o convida para um passeio de carro, ele recusa e fica no saguão do hotel. Quando o narrador volta para buscar a sua lanterna, o comerciante está com um ar “vazio como quem não tivesse coisa alguma a fazer na vida e acabasse de descobrir isto”.
20. O espanhol que morreu - Em um bar no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, o amigo do narrador é confundido com um espanhol, já falecido, que freqüentava o lugar, era amigo de todos e amado de Sueli. As mulheres, Sueli e Betty, dizem que são idênticos, com a mesma cara triste e jeito de falar. O amigo do narrador se aborrece, diz que “não é espanhol, não trabalha no comércio e nem sequer está morto”. As mulheres contam casos do Espanhol e como foi o seu enterro. O garçom pergunta se ele é irmão do Espanhol. Quando saem, algumas mulheres acompanham os amigos até a escada e o narrador diz ao amigo que aquela despedida era o enterro dele. O amigo, bêbado, sai andando na chuva, falando espanhol e some. O narrador o procura, mas não o encontra e conclui que “na verdade ele é o Espanhol, e morreu”.
21. O rei secreto
de França - Em Paris, na primavera, o narrador tem um encontro
marcado com uma mulher. Enquanto espera chegar a hora, visita o túmulo
de Maria Antonieta e conversa, distraído, com o guarda do lugar.
Está ansioso e pensa que se sentia o rei secreto da França
porque a “mais fina e bela mulher da França” viria ao seu encontro.
Corre ao casarão, local do encontro, toma mais dois conhaques. A
mulher chega e diz que aquele seria uma despedida, pois partiria para “remotas
suécias”. Ao sair, vai telefonar, enquanto ele entrega a chave do
apartamento 14 à velha “concierge”e paga em dobro. A velha diz para
ele nunca perder uma mulher como aquela. A mulher sai da cabine, ele beija
a sua mão, ela entra no táxi chorando e o narrador a descreve
como “a futura Rainha da Suécia, das distantes suécias e
noruegas do nunca mais.”
22. Visita de uma
senhora - O narrador atende a porta e entra uma moça bonita.
Segue-se um diálogo em que o narrador responde “claro” às
três primeiras perguntas. A mulher afirma que ele não a conhece,
que mora no bairro, é casada, já tinha visto o narrador na
praia e pergunta se ele só sabe dizer “claro”. Diz que há
muito tempo lia o que o narrador escrevia, e que uma vez ele escreveu algo
como se conhecesse todos os segredos dela. Depois pergunta se ele é
homem mesmo, chama-o de cínico e afirma ser uma pena ele ser tão
velho Então o narrador pergunta o que ela deseja, ela responde que
“que gosta muito do marido” e de repente começa a chorar. O narrador
sugere que ela vá embora. Ela retoca a pintura, despede-se e vai
“embora para nunca mais”.
23. Praga
de menino - O narrador conta que, quando menino, ele e seus amigos
jogavam bola na rua, em frente à casa das irmãs Teixeiras.
Elas eram “suas inimigas” porque brigavam com eles devido ao barulho que
faziam e o receio de que quebrassem alguma das inúmeras janelas
da casa. Um garoto trouxe uma bola maior e colorida e um dia essa bola
quebrou uma vidraça. Uma das irmãs, depois de brigar com
eles, cortou a bola com um canivete. Os garotos se vingaram entrando na
casa delas quando não havia ninguém, fizeram uma grande bagunça
e roubaram um anel sem valor, uma lata de goiabada, uma faca de cozinha
e um martelo. Ninguém descobriu quem foi. Os meninos nunca mais
jogaram bola diante da casa das Teixeiras e deixaram de cumprimentar aquela
que havia cortado a bola. O narrador não sabe se ela foi feliz,
mas “se foi, é porque praga de menino não tem força.”
24. Um braço
de mulher - Em um vôo Rio de Janeiro-São Paulo, o narrador
ocupa-se em acalmar uma senhora sentada ao seu lado, aflita porque o avião,
sobrevoando São Paulo, demora a descer. Quando sugere trocar de
lugar com a amiga da senhora, ela diz que prefere ter um homem ao seu lado.
Ele sente-se útil e responsável. A senhora se acalma e o
narrador começa a pensar que realmente estava demorando muito para
pousar. Tem a idéia de que a morte deveria ser assim: um nevoeiro
imenso... para sempre”. No entanto, a senhora volta a se preocupar
e o narrador de repente repara que ela tem um braço “belo, harmonioso
e musculado”. Então sente-se despertar, e a idéia da morte,
antes agradável, agora é “uma coisa sem a delicadeza e o
calor, a força macia de um braço ou de uma coxa...” No aeroporto,
o marido da senhora agradece formalmente ao narrador, que se sente um intruso,
como se tivesse traído aquele senhor. A senhora lhe dá um
pequeno sorriso, “vagamente cúmplice”. O narrador diz que certamente
não a verá mais, mas vai demorar para esquecer de seu belo
braço que, “durante um instante, foi a própria imagem da
vida”.
25. Conto de Natal
- Despedidos da fazenda em que trabalhavam, casal de colonos com filho
de seis anos caminha em direção à Fazenda Boa Vista,
a duas léguas e meia do lugar em que se encontram. A mulher está
grávida de oito meses. Começa a chover, ela não pode
mais andar. Conseguem carona num carro de bois e chegam à noite
na fazenda, que está fechada. Alojam-se junto a um burro e a uma
vaca num lugar coberto. Durante a noite, o menino nasce. O carreiro chega
e lembra que é Natal. O marido, Faustino, sugere à mulher
que chamem o recém-nascido de Jesus Cristo. A mulher não
acha graça. O menino de seis anos chama o pai para ver o irmão,
embrulhado em trapos em cima do capim. O pai olha. A criança está
morta.
26. Lembrança
de Zig - O narrador lembra de Zig, o cachorro de sua família,
quando era criança em Cachoeiro do Itapemirim. O cachorro era conhecido
na cidade por Zig Braga, mordia a todos que estivessem de farda e tinha
um profunda amizade por uma gata, com a qual dormia. Essa amizade só
se esfriou quando a gata teve cria e os filhotes incomodavam o cachorro.
Também seguia pela rua quem saísse da casa e, principalmente,
a mãe do narrador, que tinha de prendê-lo quando ia à
missa aos domingos. Muitas vezes, ele se soltava e, para desgosto do padre
e dos fiéis, cheirava a todos na igreja até encontrar a mãe
do narrador, quando então latia e abanava o rabo. Hoje a mãe
do narrador está velha e não vai mais à igreja, que
é distante. O narrador conclui que Deus deve mandar um santo de
vez em quando visitar a sua mãe, na antiga casa e, ao voltar, este
deve “se demorar um pouco sob o velho pé de fruta-pão”, onde
Zig foi enterrado.
27. Os amantes
- O narrador conta sobre os seis dias que passou trancado no apartamento
com sua amada, sem atender telefone ou abrir a porta, desfrutando de “um
entendimento que era além do amor”. Na manhã que a fome os
deixa tontos, ele sai e compra uvas. No entanto, quando volta, o “pequeno
mundo” dos amantes foi invadido (o carteiro está lá,
o telefone toca e “agora é preciso atender”, as janelas estão
escancaradas) e “o milagre se acabara”. No “lento olhar” da mulher, entretanto,
“ainda havia uma inútil, resignada esperança.”
28. O sino de ouro
- O narrador conta que, em uma localidade no sertão de
Goiás, há um sino de ouro numa pequena igreja, cujo
som puro se estende, à tarde, pelas matas e cerrados e dá
aos homens pobres do lugar uma “ração de alegria”. Os habitantes
acham que vivem do sino de ouro, não se importam com nada, fazendo
somente o essencial para viver. Não estão interessados em
progresso, negócios ou corrupção. O narrador afirma
que ouviu essa história de um homem velho, que a contou com espanto
e desprezo. Depois, o narrador contou a história para uma criança,
cujos olhos diziam que “a coisa mais bonita do mundo deve ser ouvir um
sino de ouro”. O narrador acredita que Deus, mesmo que não exista,
deve ter a mesma opinião. E conclui que nós, quando crianças,
temos, dentro da alma, um sino de ouro que com o tempo vai virando “lama
e podridão”.
29. A primeira
mulher do Nunes - Na praça Serzedelo Correia, em Copacabana,
o narrador vai tomar um táxi e vê uma mulher bonita, com ar
de estrangeira, sentada num banco do ponto de táxi. Tem a impressão
de que a mulher o segue com os olhos quando se dirige para o táxi
e, ao partir, tem a certeza de que tinha visto Marissa, a primeira mulher
do Nunes. Explica que nunca a conhecera, devido a uma série de desencontros,
mas chegara a se apaixonar, há uns quatro ou cinco anos, graças
à descrição que faziam dela e ao momento ruim porque
estava passando. Ela ficou sendo um mito e aquela mulher vista na praça
em Copacabana correspondia à imagem que o narrador fazia de Marissa.
No rápido olhar que trocaram, o narrador acredita ter “lido”
a irônica mensagem de que o destino deles era o de nunca se conhecerem.
30. O cajueiro
- Uma carta da irmã do narrador contando sobre a queda do velho
cajueiro que ficava no alto do morro, atrás da casa de seus pais,
desperta lembranças da sua infância. Ele descreve como os
meninos, à medida que cresciam, iam conhecendo a árvore e
que, no último verão, levou Carybé para vê-lo
de perto, como quem apresenta a um amigo um parente querido.
31. Encontro -
O narrador encontra casualmente, em um bar, antiga namorada. Compara
a sua beleza e jeito de mulher com a imagem que trazia dela quando jovem.
Ao despedir-se, o seu olhar lhe dá a certeza “de que nem tudo se
perde na confusão da vida e que uma vaga mas imperecível
ternura é o prêmio dos que muito souberam amar.”
32. O afogado -
Homem consegue se salvar de morrer afogado, sem pedir ajuda. Esgotado,
deita-se na areia da praia e sente-se superior às pessoas que estão
conversando sobre cinema numa barraca próxima - “uma idiota
superioridade de quem não morreu, mas podia estar morto”.
33. Madrugada -
O narrador sonha com a mulher que estivera na festa na sua casa.
Acorda de madrugada, vai até a varanda e descreve o nascer do dia,
o mar, os pescadores preparando-se para a pesca, os pássaros despertando,
o silêncio da casa e as sensações que a madrugada despertava
nele.
34. História
de pescaria - O narrador conta a pescaria feita por ele, Zé
Carlos e Manuel, motivados pela notícia de que um marlin fora visto
na Praia Azedinha. Não encontraram o marlin, mas ele fisgou “um
olho-de-boi que tinha seus vinte e cinco quilos” e ficou lutando com o
peixe durante mais de uma hora. Porém, o peixe quebrou a linha quando
a hélice do barco foi ligada, e fugiu.
35. O mato -
No entardecer de um dia chuvoso, no Rio de Janeiro, homem se afasta da
cidade e anda lentamente por um morro próximo à sua casa.
Pensa na nervosa vida da cidade, depois volta a sua atenção
para a natureza, sente paz e vontade de se tornar uma árvore, sem
desejos e sentimentos - “forte, quieto, imóvel, feliz”.
36. Do Carmo
- Na praia, o narrador encontra um velho amigo. Conversam sobre o passado,
lembram de amigos de vinte anos antes e falam de Maria do Carmo, sua beleza
e seu encanto. Esta lembrança os aproxima mais. De repente, correm
para o mar e mergulham, com o sentimento de que a água limpa também
a poeira que a passagem do tempo vai deixando na alma.
37. Visão
- O narrador descreve como, no meio de um dia cinzento, no centro do
Rio, a visão de uma mulher que, por um instante, lhe fitou e sorriu
de dentro de um carro fez com que se sentisse como um preso que visse “uma
parede se abrir sobre uma paisagem úmida e brilhante de todos os
sonhos de luz.”
38. As luvas -
O narrador encontra um par de luvas atirado atrás de uns livros
e imagina que sejam de uma mulher que o visitara duas vezes e sumira há
mais de uma semana, dizendo que telefonaria. O telefone toca, mas não
é a dona das luvas. Ao sair para um jantar, segura as luvas “como
se tivesse na mão um problema” e as joga atrás dos livros,
“onde estavam antes.”
39. As meninas
- Narrador recorda a imagem de duas meninas em uma praia, com vestidos
compridos, azul e verde, brincando no mar, acontecida há muito tempo.
Evoca o sentimento de angústia "leve, quase suave" que a cena produziu
nele.
Apreciação
Crítica
O Estilo
As crônicas de Rubem Braga tornaram-se, na modernidade, tão
paradigmáticas do ofício do cronista, que seu estilo em muito
se confunde com a própria definição do gênero
na atualidade. Segundo Davi Arrigucci Jr, em sua introdução
aos Melhores Contos de Rubem Braga: Desde o princípio, deve ter
sido difícil dizer, com precisão crítica, o que eram
aquelas crônicas. Pareciam esconder a complexidade pressentida sob
límpida naturalidade. Disfarçavam a arte da escrita numa
prosa divagadora de quem conversa sem rumo certo, distraído com
o balanço da rede, passando o tempo, mais para se livrar do ócio
e do tédio, sem se preocupar com o jeito de falar. E, no entanto,
uma prosa cheia de achados de linguagem, conseguida a custo, pelejando-se
com as palavras: um vocabulário escolhido a dedo para o lugar exato;
uma frase em geral curta, com preferência pela coordenação,
sem temer, porém, curvas e enlaces dos períodos mais longos
e complicados; uma sintaxe, enfim, leve e flexível, que tomava liberdades
e cadências da língua coloquial, propiciando um ritmo de uma
soltura sem par na literatura brasileira contemporânea.
Tal processo retoma a arte do conto oral popular, dos contadores de causos
do interior. Homens da roça transplantados para a cidade, portadores
de uma sabedoria prática acumulada, estes narradores tradicionais,
como Rubem Braga, vão buscando no emaranhado da memória,
em ritmo ruminante e lírico, encaracolado em si mesmo, instantes
de iluminação em meio ao dinamismo da cidade moderna. Ainda
segundo Arrigucci: Os olhos do cronista, treinados no jornal para
o flagrante do cotidiano, afeitos à experiência do choque
inesperado em qualquer esquina, estão preparados, em meio à
vida fragmentária, aleatória e fugaz dos tempos modernos,
para a caça de instantâneos. O cronista é um lírico
de passagem; se expressa de súbito, ao se deparar com o catalisador
da emoção poética. Por isso sua prosa, em sua continuidade
fluida, tem um ritmo em que se destaca o tempo forte da visão -
imagem, súbita iluminação, epifania -, no espaço
urbano e dessacralizado da vida moderna.
A revelação desse momento de súbita iluminação
diante de algum flagrante do cotidiano, epifania segundo James Joyce, alumbramento
para Manuel Bandeira, que faz vir à tona algo de inusitado, anteriormente
imperceptível, embora latente, no interior das personagens, é
essencial na elaboração das crônicas de Rubem Braga.
Assim, herdeiro do estilo humilde de Manuel Bandeira, o velho Braga vai
tirando poesia, feita de pequenos nadas, das insignificâncias do
cotidiano.
O narrador de Rubem Braga por vezes se apresenta na primeira pessoa, mas
raramente é o centro da narrativa. Quando narra o tempo presente,
em geral na cidade grande, encontra-se deslocado: observa e anota os outros,
nutre uma curiosidade intensa por tudo aquilo que não é o
Eu. Ao voltar ao tempo passado, remoto e rural, tende a centrar a narrativa
em si. Mas este "eu" já não é mais o mesmo, e as crônicas
são inundadas pela uma melancolia nostálgica de quem não
consegue restaurar os valores éticos do passado. Seguindo as reflexões
de Walter Benjamin sobre o papel do narrador no mundo moderno, Davi Arrigucci
Jr. assim sintetiza a posição do narrador nos Melhores Contos
de Rubem Braga: No centro da obra de Rubem Braga estará talvez
o desconcerto do narrador tradicional, cujo saber, fundado numa experiência
comunitária de outros tempos, perde a eficácia no mundo moderno.
É muito perceptível a dificuldade desse narrador para generalizar
a experiência pessoal, transformando-a em conselho prático
para os outros, ao mesmo tempo que essa experiência em si mesma se
vai tornando cada vez mais rala, num mundo que adotou o ritmo desnorteante
das mudanças contínuas e imprevisíveis.
Temas Recorrentes
Há uma grande dose de arbitrariedade e subjetivismo sempre que se
faz uma antologia com o melhor de qualquer escritor. Na seleção
das crônicas de Rubem Braga feita por Davi Arrigucci Jr. para o livro
Os Melhores Contos de Rubem Braga, causa estranheza ao admirador da obra
do velho Braga a ausência de algumas de sua crônicas mais conhecidas
e importantes, como Recado ao senhor 903, Ai de ti, Copacabana!,
Minha glória literária, O conde e o passarinho, e tantas
outras. Mas o livro que temos é esse e, como diria Machado de Assis,
não estamos aqui para emendar escolhas.
Dividir as crônicas desse livro de acordo com o tema que abordam
também não é tarefa isenta de subjetivismo e, portanto,
discussão e discordância. Fazemo-lo no intuito de ajudar o
leitor a se encontrar no emaranhado de direções para as quais
apontam os textos. Muitas das crônicas poderiam ser agrupadas em
duas ou mais categorias, e cabe ao leitor arguto tentar reorganizá-las.
Eis a nossa proposta:
1. Passado interiorano
ou em Cachoeiro do Itapemirim - reunindo as crônicas em que o
narrador aborda, de forma lírica e nostálgica, a vida na
cidade pequena do interior, entre caçadas de passarinho, encontro
com moradores da cidade grande, peladas na rua, pescarias, cachorros amigos,
e a vegetação abundante do meio quase rural:
Tuim criado no
dedo; A moça rica; Negócio de menino; Caçada de paca;
Praga de menino; Lembrança de Zig; O sino de ouro; O cajueiro; História
de pescaria.
2. Luta contra a
repressão durante a ditadura getulista (1936-1945) - textos
em que o velho Braga rememora suas aventuras fugindo da repressão
durante o Estado Novo, sempre mesclando à luta política aspectos
sentimentais e existenciais:
Diário de
um subversivo; Era uma noite de luar; Os perseguidos.
3. Observação
das injustiças sociais - crônicas centradas no conflito
entre os que nada têm e os mais privilegiados. Observe-se a semelhança
de Conto de Natal com Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e principalmente
com o Auto de Natal Pernambucano que é Morte e Vida Severina, de
João Cabral de Melo Neto:
O jovem casal;
Noite de chuva; Conto de Natal.
4. Casos da cidade
grande - textos relatando episódios passados na cidade grande,
alguns de maneira bastante realista e outros, como Marinheiro na rua, com
toques surrealistas ou, como O homem da estação, com claras
influências do expressionismo de Franz Kafka: Coração
de mãe; Marinheiro na rua; O homem da estação; A navegação
da casa; O espanhol que morreu; O rei secreto de França; Um braço
de mulher; Os amantes; O afogado; As luvas.
5. Conversas corriqueiras
- diálogos travados pelo narrador ou por personagens outros
em que predomina a observação das sutilezas psicológicas:
Falamos de carambolas;
Aula de inglês; A partilha; Força de vontade; Visita de uma
senhora; Do Carmo.
6. Instantes de
epifania pura - embora a epifania apareça de forma nuclear em
muitos dos textos agrupados em outras categorias, nestes aparece de forma
desnuda, pura, sendo a essência do texto, que descreve um instante
único de alumbramento, de iluminação:
Madrugada; O mato;
Visão.
7. O narrador "voyeur"
- crônicas em que o narrador observa, atraído como um
"voyeur", as ações de mulheres/meninas:
Viúva na
praia; A mulher que ia navegar; A primeira mulher do Nunes; Encontro; As
meninas.
Leitura
Texto 1
TUIM CRIADO
NO DEDO
(fragmentos)
João-de-barro é um bicho bobo que ninguém pega, embora
goste de ficar perto da gente; mas de dentro daquela casa de joão-de-barro
vinha uma espécie de choro, um chorinho fazendo tuim, tuim, tuim...
A casa estava num galho alto. Um menino subiu até perto. Depois,
com uma vara de bambu, conseguiu tirar a casa sem quebrar e veio baixando
até o outro menino apanhar. Dentro, naquele quartinho que fica bem
escondido depois do corredor de entrada para o vento não incomodar,
havia três filhotes, não de joão-de-barro, mas de tuim.
De todos esses periquitinhos que tem no Brasil, tuim é capaz de
ser o menor. Tem bico redondo e rabo curto e é todo verde, mas o
macho tem umas penas azuis para enfeitar. Três filhotes, cada um
mais feio que o outro, ainda sem penas, os três chorando. O menino
levou-os para casa, inventou comidinhas para eles; um morreu, outro morreu,
ficou um.
Em geral a gente cria em casa é casal de tuim, especialmente para
se apreciar o namorinho deles. Mas aquele tuim macho foi criado sozinho
e, como se diz na roça, criado
no dedo. Passava o
dia solto, esvoaçando em volta da casa da fazenda, comendo sementinhas
de imbaúba. Se aparecia uma visita, fazia-se aquela demonstração;
era o menino chegar na varanda e gritar para o arvoredo: tuim, tuim, tuim!
Às vezes demorava, a visita achava que aquilo era brincadeira do
menino, de repente surgia a ave, vinha certinho pousar no dedo do garoto.
Exercícios
1. Podemos dizer que
o narrador da crônica acima:
a) É o menino,
já adulto, rememorando um episódio triste de sua infância.
b) É observador,
sempre neutro e afastado.
c) É pai do
menino, personagem secundária, que dá conselhos sábios.
d) Manifesta-se explicitamente
apenas no início da crônica, ao nos passar seus conhecimentos
sobre pássaros.
e) É o próprio
Rubem Braga quando criança.
2. Aponte o fragmento do texto em não ocorre uma construção lingüística popular ou infantil:
a) De todos esses periquitinhos
que tem no Brasil, tuim é capaz de ser o menor.
b) Em geral a gente
cria em casa é casal de tuim...
c) ...não
sabia que chamava tuim...
d) Aquilo encheu de
medo o coração do menino.
e) "Tem gaiola para
vender?"
3. Segundo o crítico Jorge de Sá, este conto retrata "A amarga possibilidade de cada um de nós destruir o próprio objeto do desejo." Como podemos perceber na cena final, o menino acaba por causar a morte do tuim exatamente pelo medo de perdê-lo. Entre os livros abaixo, quais são aqueles em que, mesmo que de forma diferente, o mesmo fenômeno ocorre?
a) Morte e Vida Severina
e Fogo Morto
b) Dom Casmurro e
São Bernardo
c) O Primo Basílio
e Morte e Vida Severina
d) Campo Geral e O
Primo Basílio
e) Morte e Vida Severina
e Dom Casmurro
Texto 2
FORÇA DE
VONTADE
(fragmentos)
Refugou o copo de vinho que eu lhe oferecia; depois também não
quis aceitar um cigarro. Não bebia, não fumava, não
tinha nenhum vício. Tinha uma cara gorda e mole de padre, e falava
com precisão sobre o custo da vida em São Paulo.
Contou-me por exemplo que seu pai, homem de 80 anos, que mora na Quarta
Parada, vai toda semana comprar carne em Mogi das Cruzes, onde é
mais barata e mais bem servida.
-- Lá em casa comemos boa carne todo dia -- disse ele com ênfase.
Não, não era casado -- morava com os pais, que sustentava
com seu trabalho. "Aliás -- me disse subitamente, com um brilho
nos olhos e as mãos trêmulas como quem toma coragem para fazer
uma confissão sensacional -- aliás este foi o primeiro ideal
que me propus a realizar na vida. E realizei. Agora estou realizando o
último dos meus três ideais."
a) Não bebia.
b) Não fumava.
c) Não tinha
nenhum vício.
d) Não era
casado.
e) Não tinha
força de vontade quando rapazinho.
5. Podemos dizer, quanto
ao narrador da crônica acima, que:
a) Trata-se de um
narrador observador, que não participa da história.
b) Trata-se do personagem
protagonista do texto.
c) Trata-se um narrador
personagem, mas cuja função primordial é observar
e ouvir a personagem principal.
d) Trata-se de um
narrador onisciente, pois sabe tudo o que se passa na mente das personagens.
e) Trata-se de um
narrador implícito, pois apenas aparece para comentar as ações
da personagem principal.
6. A crônica
se encerra com uma epifania. Aponte-a.
Texto 3
ERA UMA NOITE DE
LUAR
(fragmentos)
(...)
Ao bater, ouvi um rumor lá dentro. Depois senti que alguém
me espiava pela veneziana, sem dizer nada. Bati outra vez. Ouvi ainda uns
rumores dentro do quarto e, por
fim, uma voz nervosa:
-- Quem é?
Marina não me havia reconhecido e com certeza estava inquieta. Tranqüilizei-a:
-- Sou eu, Domingos.
A porta abriu-se.
Tinha visto Marina poucas vezes, sempre em companhia do marido, na rua.
Nunca havíamos trocado mais de duas ou três palavras. Não
se podia dizer que fosse bonita, mas era agradável com seu ar um
pouco seco, um pouco nervoso, e seu jeito de vestir-se com severidade.
Agora estava diante de mim e não pude deixar de sorrir quando a
vi metida em
um macacão.
-- Trago notícias do Alberto.
Dei o recado que um político solto no dia anterior havia trazido.
Alberto mandava dizer que estava bem, que há muito tempo já
não o interrogavam, e que não tinha nenhuma esperança
de ser libertado tão cedo.
Exercícios
7. Essa crônica
se passa no período de repressão do Estado Novo (1937-1945)
getulista. Poderia, no entanto, passar-se em outro momento? Justifique.
8. Por que Marina
reage de forma tão brusca quando o narrador abre a janela?
Texto 4
O JOVEM CASAL
(fragmentos)
Estavam esperando o bonde e fazia muito calor. Veio um bonde, mas tão
cheio, com tanta gente pendurada nos estribos que ela apenas deu um passo
à frente, ele esboçou
com o braço
o gesto de quem vai pegar um balaústre -- e desistiram.
O homem da carrocinha de pão obrigou-os a recuar para perto do meio-fio;
depois o negrinho da lavanderia passou com a bicicleta tão junto
que um vestido esvoaçante bateu na cara do rapaz.
Ela se queixou de dor de cabeça; ele sentia uma dor de dente enjoada
e insistente -- preferiu não dizer nada. Ano e meio casados, tanta
aventura sonhada, e estavam tão mal naquele quarto de pensão
do Catete, muito barulhento: "Lutaremos contra tudo" -- havia dito -- e
ele pensou com amargor que estavam lutando apenas contra as baratas, as
horríveis baratas do velho sobradão. Ela com um gesto de
susto e nojo se encolhia a um canto ou saía para o corredor -- ele,
com repugnância, ia matar a barata; depois, com mais desgosto ainda,
jogá-la fora.
E havia as pulgas; havia a falta d'água, e quando havia água,
a fila dos hóspedes diante da porta do chuveiro. Havia as instalações
que cheiravam mal, o papel da parede amarelado e feio. As duas velhas gordas,
pintadas, na mesinha ao lado, lhe tiravam o apetite para a mesquinha comida
da pensão. Toda a tristeza, toda a mediocridade, toda a feiúra
duma vida estreita, onde o mau gosto pretensioso da classe média
se juntava à minuciosa ganância comercial -- um simples ovo
era "extraordinário". Quando eles pediam dois ovos, a dona da pensão
olhava com raiva; estavam atrasados no pagamento.
Exercícios
9. Comente a posição
do narrador desta crônica.
10. Aponte na crônica
um exemplo de discurso indireto livre.
Respostas aos exercícios
1. d
2. d
3. b
4. e
5. c
6. O homem com força de vontade,
que impunha a si mesmo obstáculos para alcançar seus ideais,
ao vê-los realizados, percebe-se, subitamente, "vazio como quem não
tivesse coisa alguma a fazer na vida". Neste instante súbito de
iluminação, ou epifania, parece ter chegado à conclusão
de que, sem obstáculos, nada mais lhe resta a desejar na vida.
7. Certamente. Retrata perfeitamente a situação dos perseguidos políticos de diversas épocas no Brasil. Poderia passar-se, por exemplo, durante a década de 70. O narrador não fornece dados precisos sobre a localização temporal da crônica. Talvez por se interessar mais pelos conflitos psicológicos resultantes do período de repressão.
8. Ao abrir a janela, o narrador deixa penetrar o luar. A leitora de Olavo Bilac ( "Ora, direis, ouvir estrelas!"), solitária, afastada do marido, teme tanto seus impulsos sexuais quanto a repressão militar. Isto se comprova pelo medo que tivera de um homem na rua, julgando-o um policial, quando não passava de um galanteador. O luar que penetrava pela janela evocava lembranças e provocava desejos. Por isso, a reação intempestiva e a expulsão do narrador de seu quarto.
9. A crônica é narrada na terceira pessoa, por um narrador que parece estar observando (do outro lado da rua?) o jovem casal. Onisciente seletivo, penetra na cabeça do jovem marido para extrair seu sofrimento com a situação econômica em que se encontram. O narrador claramente se coloca (e aos leitores) em posição simpática ao casal, descrevendo como suportam com nobreza a miséria. Por outro lado, descreve de forma desdenhosa o casal do automóvel, composto por "...um sujeito de ar importante na direção e sua mulherzinha meio gorducha..." . Trata-se, portanto de um narrador subjetivo, embora na terceira pessoa.
10. "...quinze contos, meses e meses,
anos de pensão?"

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